
Poucas bandas conseguiram criar um repertório tão rico quanto o de uma certa banda britânica formada em Liverpool.
E principalmente com músicas que refletisse tão bem o espírito do próprio tempo.
Afinal, sejamos sinceros, nunca existiu banda melhor ou mais importante que os Beatles.
Durante quase uma década, eles chegaram, ousaram, inovaram, criaram algumas das mais belas músicas já gravadas, influênciaram tudo o que veio depois e mudaram completamente a cultura pop em todos os sentidos, criando o fenômeno "beatlemania" que sobrevive mesmo 50 anos depois e que nunca conseguiu ser copiado.
Impossível não perguntar como uma banda pode ser tão amada mesmo tanto tempo depois do seu fim.
Talvez por isso seja ridículo pensar como nunca havia passado pela cabeça de ninguém criar um retrato dos anos 60 usando apenas canções dos Beatles para contar uma história de amor.
Pelo menos não antes do filme Across The Universe.
Como trama principal, o filme apresenta o romance entre o inglês Jude (Jim Sturgess) e a americana Lucy (Evan Rachel Wood). Mas logo fica claro que o objetivo do filme é montar uma tela dos anos 60, mostrando coisas como racismo, protestos, guerra, psicodelia, hippies e o que signicava ser um jovem nessa época.
Cada tema tem um personagem principal. Lucy, por exemplo, é a vontade de lutar por algum ideal. Seu irmão Max (Joe Anderson) revela a Guerra do Vietnã. A personagem Prudence (T.V. Carpio) personifica a liberdade sexual, a dupla Jojo (Martin Luther McCoy) e Sadie (Dana Fuchs) mostram o cenário musical da década, e assim por diante.
Mas o principal mesmo é a trilha sonora.
São 33 músicas dos Beatles que se integram à história e acabam ganhando o contexto que a diretora Julie Taymor definir. Desse jeito,
"I Want You (She's So Heavy)" acaba incorporando o clássico slogan do Tio Sam enquanto ele recruta jovens americanos para a guerra.
"Dear Prudence" surge como forma de abordar a homossexualidade, enquanto que
"Strawberry Fields Forever" usa o campo de morangos para criar um sangrento campo de guerra.
As músicas também acabam ganhando novos arranjos.
"Let It Be", talvez a mais bela canção do filme, é cantada ao estilo dos corais de igrejas frequentadas principalmente por negros.
"Being For The Benefit Of Mr. Kite!" é praticamente falada, como se realmente estivessemos vendo um mestre de cerimônias de um circo bizarro.
"Oh! Darling" é a discussão de um casal, e
"Come Together" ganha um clima sombrio, cantada por um cafetão, mostrando o quão assustadora Nova York pode ser à primeira vista.
"With A Little Help From My Friends", cantada por jovens universitários se divertindo em uma noite, é a versão original dos Beatles quando todos estão sóbrios e a versão "Anos Incríveis" de Joe Cocker (que participa do filme cantando
"Come Together") quando todos já estão bêbados.
Outro atrativo do filme é catar as referências a Beatles jogadas por todos os 133 minutos de película.
O mais óbvio à primeira vista são os nomes de todos os personagens. Jude e Lucy são das clássicas
"Hey Jude" e
"Lucy in the Sky With Diamonts". Max é o personagem principal de
"Maxwell's Silver Hammer", Jojo é o de
"Get Back", Prudence a de
"Dear Prudence"...
Além disso outras referências são espalhadas pelo filme, desde maçãs cortadas até concertos musicais em telhados, mas essas eu não vou falar por aqui para não estragar nenhuma diversão.
Por mais óbvia que pudesse ser a idéia de Across The Universe, quem assite ao filme acaba ficando com a sensação que ela só estava esperando até ser feita da maneira certa.
Com um elenco perfeito, criativas e ousadas sacadas visuais, arranjos musicais certeiros e um final que te deixa com um sorriso nos lábios, Across The Universe consegue concluir uma tarefa difícil...
A de fazer jus ao nome Beatles.
Afinal, mesmo caminhando para a segunda década dos anos 2000, beatlemaníaco é o que não falta.
Como uma banda pode ser tão amada mesmo tanto tempo depois do seu fim?
Essa lição já foi ensinada pelos mestres:
"And, in the end, the love you take
Is equal to the love you make"