quarta-feira, 30 de julho de 2008

Amor e Ódio


Por motivos de copleta falta de tempo, estou postando por aqui um texto meu que saiu no blog do meu amigo Vitinho, o (altamente recomendável e extremamente cultural) Frívolas Letras.
Espero que vcs gostem:


O que mais me fascina na história da música não são as melodias geniais de um “Sgt. Peppers”, ou os arranjos elaborados de “Pet Souds”. Não é a poesia contida nos Smiths, ou mesmo a rebeldia contida nos Sex Pistols. Não é a capacidade de se reinventar, ou de romper barreiras culturais, ou de emocionar, ou de entender exatamente o que a pessoa que a escuta está sentindo. Não, não é nada disso.

O que mais me fascina é perceber que nada disso foi feito por uma só pessoa. Nada disso saiu de apenas uma cabeça genial. Nenhuma perfeição existente em uma melodia, em uma letra ou em uma canção foi obra de um momento único de inspiração criativa.

O que mais me fascina na história da música são as parcerias, ou mesmo as competições musicais.

O fato é que o destino (ou o acaso) consegue, em alguns casos, unir de maneira tão perfeita dois talentos brilhantes em uma mesma obra.
O que seria da música atual se o pequeno Paul McCartney, aos 15 anos, não tivesse conhecido o pequeno John Lennon em um show, no subúrbio de Liverpool, em 1957? Sem os Beatles, 99% das bandas de hoje simplesmente não existiria (não da maneira como as conhecemos). Em menos de 10 anos, eles mudaram não apenas o cenário musical, como também o estilo de moda e de vida de toda uma época, tornando-se lendas. O sucesso comercial é refletido até nos dias de hoje, quando Paul McCartney é considerado um dos maiores nomes da música e John Lennon figura como segundo na lista de “Personalidades Mortas Mais Lucrativas” da revista Forbes. Ainda que a parceria tenha esfriado entre 66 e 67, quando os dois resolveram criar individualmente (A Day In The Life é considerada a última parceria entre os dois), eles continuaram colaborando em todas as músicas até o fim da banda, em 1969. Mesmo quando não se uniam para uma mesma música, era a rivalidade entre os dois talentos que acabou por criar clássicos como “All You Need Is Love”, “Let It Be”, “Eleanor Rigby”, “Across The Universe”, entre tantas outras músicas gravadas pela banda.

Rivalidade também foi o que fez Brian Wilson criar uma das maiores obras musicais já gravadas. O disco “Pet Souds” foi a resposta dos Beach Boys, mais particularmente de Brian Wilson, ao disco Rubber Soul, dos Beatles. Para vencer a competição que criou em sua mente, Wilson resolveu criar uma obra com arranjos complexos, letras mais maduras e melodias geniais. Chamou o letrista Tony Asher para ajudá-lo e lançou, em 1966, um dos discos mais importantes do século XX. Foi considerado pelo próprio beatle Paul McCartney um de seus discos favoritos, dizendo que a musica “God Only Knows” era a canção mais linda que já tinha ouvido (afirmação que sustenta até hoje). Inspirado pela “competição”, Paul resolveu criar com sua banda o maravilhoso “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, disco que é considerado por muitos fãs e críticos como o melhor dos Beatles. O disco serviu de catarse para Brian, que considerou a obra insuperável e largou as gravações do album “Smile”. Considerado muito a frente de sua época, o álbum contava com letras elaboradas de Van Dyke Parks, e consistia em três movimentos: um primeiro, com músicas temáticas sobre os pioneiros e o Velho Oeste; um segundo falando sobre a infância e a inocência; e um terceiro, dedicado aos 4 elementos da natureza. Abandonado devido às crises esquisofrênicas de seu idealizador, o album foi retomado e finalizado em 2003, mostrando toda a genialidade que ele não pode mostrar naquela época.

Em 1976, Londres criou, entre inúmeras bandas punks, uma que se destacava tanto pelas suas letras politizadas quanto por suas melodias mais elaboradas. O Clash tinha como homens de frente Joe Strummer e Mick Jones. Por 9 anos, os dois foram a base de uma das bandas mais influentes da Inglaterra, lançando clássicos como o álbum London Calling que, misturando rock, punk, reggae, rockabilly e funk, é considerado um dos maiores albuns de todos os tempos. Mas a situação da banda se tornou insustentável pelas diferenças criativas de seus principais compositores: Strummer queria colocar mais teor politico nas músicas, enquanto que Jones se guiava para um lado mais pop. As divergências musicais culminaram na expulsão de Mick Jones do Clash. Mas apenas o talento de Strummer não conseguiu sustentar uma banda como aquela, e o Clash terminou em 1985, após o lançamento do detonado album “Cut the Crap”. Outro exemplo similar aconteceu com a banda Libertines, considerada “a salvação do rock” pelas publicações britânicas. Produzida pelo próprio Mick Jones, seus líderes Carl Barat e Pete Doherty sempre demonstraram uma relação de amor e ódio, até que Doherty foi expulso da banda por culpa de seu envolvimento com drogas, além da rivalidade musical (e pessoal) existente entre os dois. Alguns meses depois, Barat percebeu que a banda não era a mesma sem a presença do parceiro, e o Libertines teve seu fim decretado.

A música ainda conta com inúmeras outras duplas: a poesia de Morrisey e a melodia de Johnny Marr, nos Smiths; as brigas e as músicas dos irmãos Gallagher, no Oasis; os atritos entre Mick Jagger e Keith Richards, nos Rolling Stones; a atitude dos melhores/piores amigos Jonnhy Rotten e Sid Vicius, nos Sex Pistols... sem contar nossas duplas brasileiras, como Erasmo e Roberto, Vinicios e Toquinho, entre outros que não devem nada aos músicos internacionais... mas eu precisaria de um outro post prar falar deles...!

Fazer da música um ato solitário é um dom. Um talento que poucos conseguem administrar.
Mas o verdadeiro desafio é conseguir conciliar dois talentos diferentes, criando obras de arte difíceis de serem superadas. E é a química e a rivalidade criada entre dois gênios musicais que adiciona uma magia a mais na música.

Principalmente por essas parcerias mostrarem que a linha entre o amor e o ódio entre dois amigos é muito mais fina do que podemos imaginar...

4 comentários:

Douglas Funny disse...

me nego a ler esse texto novamente...

...

.. tá bom.. eu menti!!

Vitinho disse...

"altamente recomendável e extremamente cultural"

de longe, o melhor elogio que o meu blog já recebeu...o segundo melhor continua sendo "legal".

Mary West disse...

Eu simplesmente adoro mesmo ouvir falar destas turbulentas relações amorosas...Naum deixa de ser neah? Pena que elas naum são eternas mesmo, como qualquer casal marcante, uma hora o fogo se esvai.

Renatinha disse...

Blogs geniais também são frutos de parcerias! ;)