quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ensaio Sobre a Esperança


- Você ta aí? – ela perguntou, encostada na porta fechada, sem esperar retorno.

As noites eram sempre mais difíceis, quando a solidão que vinha com a escuridão inundava toda a casa. Nunca era fácil, mas a escuridão sempre teimava em tornar tudo especialmente difícil.

- Só me diz se você ta bem... – perguntou com os olhos molhados, já sabendo a resposta. Dessa vez o silêncio foi doído, sofrido, ensurdecedor. Nem um murmúrio, nem um gruído, nem um suspiro. Apenas o silêncio, que já dizia muito mais que qualquer outra resposta.

Ela voltou à sala, com uma conformação fingida no rosto. Se a depressão do garoto não respondia mais aos medicamentos, o que se havia de fazer? Só lhe restava esperar que o sol nascesse no dia seguinte, e no dia seguinte, e no dia seguinte. Enquanto a noite durasse, tudo o que lhe restava era esperar.

Serviu-se de um copo e, sem pensar, quase que por instinto, bebeu em um só gole todo aquele líquido amargo. Sentiu-lhe queimar a garganta e subir quase que imediatamente ao cérebro. Ainda assim, não alterou sua expressão indiferente e cansada. Encheu novamente o copo, ainda sentindo o efeito do álcool.
Aquele era seu filho. Seu único filho, que havia perdido completamente a vontade de viver. E quando a própria vida derruba uma alma, apenas ela pode se levantar.
Sozinha, sentou-se em sua poltrona e relaxou a cabeça. Perdida em seus próprios pensamentos, apagou a luminária da mesa a sua direita, onde largou o copo já vaziu, e deixou-se envolver pelo escuro, tentando sentir se sua própria alma suportaria todo aquele peso. Queria trocar, dar sua alma ao seu filho e segurar em seus braços aquela alma frágil, quebrada por sua própria sensibilidade. Queria deitá-la em seu colo e niná-la cantando aquela música antiga que sempre cantava anos antes. "You are my sunshine, my only sunshine..." Quando tudo era mais fácil. Quando uma simples canção conseguia consertar qualquer estrago causado pela vida. Mexeu os lábio ao ritmo da música que escutava claramente dentro de sua cabeça. "You make me happy when skies are grey..." Sentiu aquele corpo pequeno em seus braços, e o apertou forte, querendo nunca mais deixá-lo escapar. "You’ll never know, dear, how much I love you..." Apertou tão forte que percebeu que apenas abraçava o vaziu. "Please don’t take my sunshine away…"

Abriu os olhos, desperta daquela memória. Mas a música continuava. Não em sua cabeça. "You are my sunshine..." Caminhou até o quarto do filho e abriu delicadamente a porta. Tão claro quanto ouvia em suas próprias lembranças, o rádio tocava aquela mesma música. Deitado na cama, o corpo de seu filho repousava serenamente. Dormia um sono pesado, alheio ao próprio sofrimento. Ao se aproximar, ela percebeu algo no rosto do filho que não via há muito tempo.

No canto de seus lábios, esboçava um discreto e esperançoso sorriso.

Esperança. Há quanto tempo não se dava a esse direito?

A música ainda tocava quando deitou-se na cama, abraçando aquele garoto, a coisa mais preciosa de toda a sua vida.

"Please don’t take my sunshine away..."

Lá fora, a noite já acabava, e o sol voltava a iluminar o mundo.

Assim como aconteceria no dia seguinte.

E também no dia seguinte.

E no seguinte...

8 comentários:

Renatinho disse...

Que texto lindo '-'

Renatinha disse...

Não sei se fico triste ou feliz. ;/

guimbas disse...

muito bonito, man. parabéns, de verdade.

Mirele disse...

Ótimo texto mesmo!
Acabei de ler Running with Scissors e o texto me lembrou um pouco o livro... :)

Douglas Funny disse...

Perdão a demora, tava muita agitação.

Mas o texto ficou muito bom, relembrei de certas coisas, umas boas outras ruins. Mas você sabe que falando em "acreditar", você me conquista.

hehehehehehehe

Quente.

Cá Ciarallo disse...

Lindo.

Ollie Queen disse...

Rapaz, cada dia que passa teu lirismo...teu estilo de escrita me deixa surpreso, e por que não dizer, satisfeito.

Nesse mundo em que a internet parece que mais emburrece e apodrece nossos neurônios do que os deixa mais afiados, eu congratulo um cara que escreve um texto assim, como esse seu. Aproveitei e olhei os demais ensaios. Bom saber que você tem melhorado conforme o tempo passa.

...


É isso. Nos esbarramos no HQM.

Madruga Tripper disse...

fodão. me lembrou o takeda