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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Maus


Por Brancatelli.

"Toda palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada."

A frase, do escritor irlandês Samuel Beckett, é citada em uma conversa entre o desenhista Art Spiegelman e seu psiquiatra, cena real presente na sua HQ biográfica Maus ("ratos", em alemão), publicada em 1991.

A obra, inicialmente criada para contar a história de como seu pai, Vladek Spiegelman, sobreviveu aos horrores da Segunda Guerra e ao campo de Auschwitz, acabou se transformando num relato do difícil relacionamento entre pai e filho.
Mais que isso, em um acerto de contas do autor consigo mesmo e com seu passado conturbado.

Mesmo retratando os judeus como ratos e os alemães como gatos, Spiegelman humaniza seus personagens de uma maneira extremamente sóbria. Do soldado nazista ao povo polonês (retratado como porcos), dos informantes traidores até seu próprio pai, o estereótipo do judeu mesquinho, pão-duro e racista.
Não existem heróis perfeitos, o que existe são seres-humanos, tão imperfeitos e cheios de falhas que é impossível não reconhecermos a nós mesmos.

Em Maus não existe a idealização.
Apenas a realidade.

Alternando a história de seu pai à sua própria, Art tenta justificar a difícil figura do pai, moldada pela Guerra, pela perseguição, pelas perdas e pelo suicídio de sua esposa.
Desse modo, Art acaba tentando justificar suas próprias ações. Em certo momento, o autor percebe que, no fundo, ele sempre competia com a lembrança de seu irmão, morto na Guerra antes mesmo de seu nascimento, e que tudo o que ele carregava disso era culpa. Culpa por não ter passado pelo que seus pais passaram, culpa por ter sobrevivido ao seu irmão, culpa por não conseguir entender o sofrimento de se estar preso em um campo de concentração, de passar fome e estar às portas da morte, culpa por se sentir explorando a tragédia do Holocausto em sua obra, culpa pelo seu próprio sucesso.
Enquanto relata a história de seu pai, Art liberta todos seus traumas psicológicos.

"Toda palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada."

Tentar definir o horror do Holocausto nazista é uma tarefa impossível, mesmo para quem sentiu suas marcas na própria pele. Pior ainda seria tentar entendê-lo.
Na conversa onde essa frase é citada, Art é questionado por seu psiquiatra do porque de existir tantas obras sobre o Holocausto, se ainda assim as pessoas não mudaram.
Maus não tenta explicar o que aconteceu, e tão pouco justificar. A obra apenas mostra, em uma leitura pesada e perturbadora, as profundas cicatrizes que tudo aquilo deixou em seus sobreviventes, seja nos diretos quanto nos indiretos.
Não importa os culpados, apenas as vítimas.

A ilimitada maldade humana não é algo compreensível.
E qualquer tentativa de representá-la acaba sendo apenas uma mácula desnecessária no silêncio, que por si só já diz muito mais.

Mas conseguir transformá-la em arte?
Isso sim é admirável.

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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Cicatrizes


"Ninguém ouviu suas lágrimas; o coração é uma fonte de águas chorosas que não fazem barulho no mundo."

É com essa frase, do poeta Edward Dahlberg, que o quadrinista e ilustrador de livros infantis David Small usa para definir (e talvez até perdoar) sua mãe no final da HQ autobiográfica Cicatrizes, provavelmente o melhor lançamento do ano passado aqui no Brasil.
Passando por sua infância em "uma casa onde o silêncio reinava e falar o que se pensava era proibido" - como o próprio autor desabafa em certa parte - até chegar à idade adulta, Cicatrizes mostra cada evento que moldou o homem que David Small viria a se tornar. Da loucura hereditária à descoberta do talento artistico. Dos problemas no nascimento às suas consequências. Das agressões psicológicas da mãe e do descaso do pai à sua própria redenção.

Ao ler isso que eu escrevi, talvez pareça que Cicatrizes é uma obra pesada, de difícil digestão... o que não está muito longe da verdade.
Mas o diferencial está no traço e na leveza de Small em contar suas próprias tragédias, não com o tom choroso e sentimental que se espera, mas com uma sutileza rara, criando em meio ao pesadelo que foi sua infância momentos até divertidos.
Vale destacar a destreza com a qual o autor passeia tanto pelo mundo real quanto pela sua imaginação e seus sonhos, surpreendendo que alguém que tenha sido criado por pessoas tão frias e egoístas possa ter tanta poesia e sensibilidade dentro de si. Sem encher as páginas de textos, Small prova ser dono de uma narrativa perfeita, que consegue se sustentar muitas vezes apenas por seus desenhos. A sequência em que David foge do bullyng de outras crianças e se refugia em seus próprios desenhos é fantástica, para dizer o mínimo. Assim como o momento em que, na sua primeira consulta com um psiquiatra, ele finalmente de depara com a verdade que definiu toda sua vida. Impossível sair ileso daquelas páginas.

Mas é tudo um aperitivo antes do grande momento da obra, um sonho contado em suas últimas páginas, que consegue simbolizar toda a vida do desenhista.
Contar qualquer coisa sobre esse sonho seria o bastante para diminuir seu impacto, mas basta dizer que apenas esse trecho já é o bastante para definir Cicatrizes como uma obra-prima moderna.

A HQ Cicatrizes é, sobretudo, um tratado sobre a loucura.
E da insanidade absurda que foi sua infância, David Small sobreviveu e criou do seu desabafo pessoal um pequeno pedaço de arte.

Porque a verdadeira arte é escrita com sangue e lágrimas, de cicatrizes que nunca realmente se fecham..

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Os Fabulosos Killjoys


Gerard Way é um roteirista de quadrinhos.
Formado na Escola de Artes Visuais de New York, ele já ganhou um Eisner Award - o prêmio máximo da indústria de HQs - com a série The Umbrella Academy, criada em parceria com o desenhista brazuca Gabriel Bá. Os dois arcos lançados já são leitura obrigatória, recomendados inclusive por um dos maiores gênios do meio, Grant Morrison. Ah, e também por mim.
Sua nova série de quadrinhos, intitulada The True Lives of the Fabulous Killjoys, foi anunciada na ComicCon 2009. Desde então, nenhum outro detalhe foi divulgado.

Ah sim, Gerard Way também tem uma banda de rock, chamada My Chemical Romance.

Agora, o My Chemical Romance lança seu 4º álbum de estúdio, após o sucesso do insanamente sensacional The Black Parade (do qual eu já falei neste ótemo post AQUÊ!).
O nome do álbum: Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys.
E é onde o Gerard músico se mistura de maneira praticamente celular ao Gerard roteirista.

Num mundo kafkaniano em 2019, os Killjoys são um grupo de foras-da-lei, lutando contra mega-corporações malignas e vivendo à margem da sociedade, sem nenhuma esperança de vitória e apenas adiando o destino certo: a morte.
É nesse universo que Danger Days se situa, como uma seleção das músicas que tocariam em uma rádio pirata, comandada pelo DJ auto-denominado Dr. Death Defying.
Essa é a impressão ao ouvir o álbum. Como se fossem várias bandas diferentes em um mesmo contexto.

Esqueça a imagem "emo" dos álbuns anteriores da banda, maquiagens, melancolia e vocais teatrais, isso não existe aqui.
O que existe é apenas o rock, seja o punk (em pérolas como no genial primeiro single "Na Na Na", na acelerada "Party Poison" e na empolgante e crua "Vampire Money"), o épico (as grandiosas "The Only Hope for Me Is You" e "Save Yourself, I'll Hold Them Back") e até o dançante (na faixa "Planetary (GO!)", provavelmente a coisa mais diferente e interessante que o MCR já gravou). Sobra ainda referências a Beastie Boys, Rage Against the Machine (na pesada "DESTROYA") e algo próximo do Keane (na balada "Summertime").
Em cada música uma pegada completamente diferente da anterior.
Cada música, uma banda completamente diferente.

Voltando ao mundo nerd dos quadrinhos, podemos até tentar comparar este novo álbum com o trabalho anterior.
The Black Parade, com seus temas sobre câncer, arrependimentos e morte em uma história poética e direta, se encaixa em uma HQ autoral, filosófica, com cores pesadas e sombrias, criada para fazer seu leitor pensar e refletir sobre a vida e o fim dela.
Danger Days, com sua aparente despretensão e a impressão de que a banda só quis enfim se divertir, está mais para uma história de super-heróis, colorida e explosiva, que você lê, pensa "noooossa, que foda!" e esquece todo o mundo ao seu redor.
Dois estilos diferentes. E que, por isso mesmo, é impossível decidir qual dos dois é melhor.

A impressão é de que o My Chemical Romance pegou tudo o que aprendeu nos quase 10 anos de banda e criou essa obra.
Grandiosa, pesada, melódica, inteligente, criativa, legitimamente punk.

E principalmente muito, muito divertida!!!

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sobre Scott Pilgrim


Existe uma classe de pessoas que vive à margem da sociedade.
São pessoas discretas, tímidas, que aparentemente não se esforçam para ser o centro das atenções.
Elas ficam sempre no fundo, sem fazer muito barulho, sempre focados, como se vivessem no seu próprio mundo.
Pessoas que você nem ao menos nota a não ser que preste muita atenção.
Mas quando você presta atenção, essas pessoas conseguem se destacar até mais que as outras.
E é aí que elas te surpreendem de um jeito que ninguém mais consegue.
Porque... bem... elas têm super-poderes!

Essas pessoas também são conhecidas como...

Os baixistas!

E nada mais justo que o personagem principal da franquia (HQ, filme, video-game e bonequinhos) Scott Pilgrim seja dessa classe em particular!

Scott Pilgrim parece apenas um rapaz canadense comum.
Ele é desempregado, mora (e divide a cama) com seu amigo gay e não tem grandes pretensões na vida a não ser ensaiar com sua banda, o Sex Bob-Omb, e sair com sua namorada chinesa colegial, com quem o maior contato físico foi algo que ele ACHA ter sido um abraço. Isso até ele conhecer em seus sonhos - na verdade uma rodovia subespacial que funciona como um buraco de minhoca... nunca ouviu falar dela? - Ramona Flowers, por quem se apaixona antes mesmo de conhecer ao vivo. Mas para conseguir namorá-la, ele antes terá que vencer seus 7 ex-namorados do mal!!! Quem disse que seria fácil, hã?

É nisso que o filme, adaptado da HQ, se foca.
A velha história "garoto conhece garota", mas regada de referências a quadrinhos, mangás, jogos de video-game, filmes e séries de TV.
Mas diferente de filmes indies alternativos nerds, que usam essas referências para se ligar emocionalmente aos seus espectadores, Scott Pilgrim mergulha nessas referências em um outro nível! Elas deixam de ser "referências" e se tornam parte essencial do filme, tão importantes quanto a trama ou qualquer personagem! Isso se mostra desde os detalhes visuais, como o ding-dong da campainha até às lutas ao estilo Street Fighter. Desde a tela inicial com o logo da Universal ao estilo 8 bits e com direito a clássica música de sintetizador até à hilária homenagem ao seriado Seinfeld. Tudo se mistura à narrativa, como se o filme não pudesse existir sem isso.
É o que aconteceria se o filme não estivesse nas mãos do gênio Edgard Wright. É até engraçado notar que o ritmo insano e ágil de Scott Pilgrim já podia ser encontrado nos trabalhos anteriores do diretor, Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso (se você não viu qualquer um desses filmes, levanta a bunda da cadeira, para de ler este texto e vai alugar/baixar imediatamente!).
E impossível não dar mérito ao ator principal do filme, o tão amado quanto odiado Michael Cera. Depois de participar da maior parte dos filmes indie-comerciais como Superbad, Nick & Norah e Juno, o cara se prova em Scott Pilgrim (com toda certeza o mais indie dentre todos esses filmes). Seja nas cenas cômicas, seja nas cenas de luta, ele mostra que foi a escolha mais certa pro papel. Digo até que, assim como Scott Pilgrim personifica toda uma cultura indie, Michael Cera personifica o cinema indie, a caracterização do loser-pop como poucos conseguem fazer. Um dos grandes méritos do filme. Assim como TODO o resto do elenco, cada ator perfeito em seu respectivo papel!

O único problema é que, enquanto que o filme se foca na premissa que eu disse lááááá em cima, a HQ vai muito além disso.
Se no cinema a história de Scott Pilgrim se resume ao já citado "garoto conhece garota", os quadrinhos mostram A VIDA de Scott Pilgrim, sua busca por emprego, suas ex-namoradas, sub-plots que o filme foi obrigado a cortar para encaixar a história em 112 minutos. Aliás, coisa que fez muito bem, mas que perde pontos numa comparação.

Apesar disso, tanto filme quanto HQ falam da mesma coisa:
O medo de atingir a maturidade e a responsabilidade, e o fato de que o passado sempre vem nos confrontar de novo.
Posso até dizer que da pra encontrar imensos paralelos e simbolismos na história criada pelo quadrinista Bryan Lee O'Malley, mas aposto que ninguém aqui está com saco de ler isso...!
Quem sabe num próximo post. Ou não.

Outra coisa que é idêntica entre filme e HQ...
Nenhum dos dois foram feitos para todos os públicos.
Talvez isso explique o fracasso de bilheteria la fora e a dificuldade em lançar o filme por aqui em terras brazucas, ainda que num número limitado de cinemas. Mérito da distribuidora Paramont, que realmente se esforçou ao máximo em trazer o filme a nós, público brasileiro.

Enfim, na minha opinião Scott Pilgrim é o melhor filme do ano e, talvez, de repente, se pá, sendo bem ousado, a melhor adaptação de uma HQ já feita!
Ah, e definitivamente é a maior homenagem que se poderia fazer ao mundo dos video-games!

E não fale mal de Scott Pilgrim se quiser continuar a ser meu amigo! Há! #Brinks #NemTanto

Em toda sua despretensão, Scott Pilgrim é ÉPICO!!!


PS: corre atrás da sensacional trilha-sonora e deprima-se comigo pelo fato de que nunca veremos um CD exclusivo ou mesmo um show do Sex Bob-Omb...

=[

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ETs e Zumbis


As duas melhores novas séries da TV..
Ou pelo menos as duas melhores novas séries que eu assisti!


THE EVENT

Desde o fim de Lost, todos procuram um substituto à altura, mas as opções teimam em se revelarem fiascos e promessas vazias, como foi o caso da já finada Flashfoward.
Eis que surge, do marasmo e da falta de criatividade da televisão norte-americana, uma série como The Event. E ao que parece, ao menos em termos de qualidade, finalmente encontramos uma gota de esperança.

Tudo gira em torno de uma raça alienígena, uma conspiração e um misterioso evento que está sendo planejado há anos.
Apesar de pintada como confusa, o primeiro episódio mostra as peças e o segundo já trata de encaixá-las no quebra-cabeça. E assim como cada episódio aumenta o mistério em torno do tal Evento, eles também distribuem pequenas respostas, num ritmo ágil, sem muito tempo para respirar.

Assim como Lost, a série começa em um avião. E assim como Lost, a série faz uso de flashbacks para jogar luz no que acontece no presente. Mas as semelhanças entre as duas séries terminam aí.
The Event também usa a interatividade com o telespectador para prender o interesse do público. Alguns personagens possuem sites e contas no Twitter, onde lançam pequenas pistas sobre os mistérios da série.
Uma pena que isso não tem conseguido segurar a audiência norte-americana, que cai a cada episódio. A primeira temporada está garantida, mas difícil dizer se conseguirá se manter por mais tempo.

Vale a pena dizer que Lost, na época de seu lançamento, era uma série sobre sobreviventes numa ilha. Por isso conseguiu uma audiência tão grande, por disfarçar a complexidade em uma trama aparentemente simples. No momento em que começaram as viagens no tempo e os grandes mistérios, já existia um público fiel, que ainda assim diminuiu bastante ao longo das temporadas.
The Event já surgiu complexa, obrigando seu público a fazer o que não está acostumado: pensar.
Desse jeito, a série pode ter assinado o seu próprio prazo de validade...


THE WALKING DEAD

A série mais esperada por qualquer fã de quadrinhos.
Baseada na sensacional HQ do Robert Kirkman, produzida, escrita e dirigida pelo brilhante Frank Darabont, Walking Dead já havia liberado imagens, teasers, fotos, vídeos e mais um monte de coisas que fizeram a festa dos fãs.
Não tinha como dar errado...

E não deu mesmo!

A série (e a HQ) mostra a já manjada história dos sobreviventes em um mundo tomado por zumbis. Mas como bem aprendeu com os filmes do mestre George Romero, The Walking Dead usa o cenário apocalíptico apenas como pano de fundo para se focar em algo muito mais importante: seus personagens. Tanto o quadrinista Kirkman quanto o diretor Darabont se preocupam muito mais em mostrar o drama de pessoas normais que se encontram em um mundo completamente diferente do que em sustos fáceis e cenas sangrentas e escatalógicas (o que não significa que elas também não existam).
Isso já se prova neste primeiro episódio. Ao invés de sustos, o que você vai encontrar é uma tensão constante, a desconfortante sensação de ter que estar sempre alerta.
Isso já é um grande diferencial que destaca The Walking Dead das bobagens de terror que vemos por aí.

Ainda assim, nem tudo é perfeito.
O episódio peca por alguns diálogos forçados e uma constante enrolação, principalmente no começo. Mas talvez até mesmo essa enrolação seja necessária. A série em quadrinhos é conhecida por passar várias edições no mais puro marasmo até que, sem aviso, acontece algo bombástico. Por isso que a HQ se vende mais pelos seus encadernados que pelos números mensais.
Basta a série definir seu ritmo e acho que isso vai ficar mais equilibrado.
Infelizmente para os fãs de quadrinhos, a série sempre será comparada com a HQ original. Eu pessoalmente senti falta de algumas passagens da história, e em várias outras eu me peguei pensando "hmm, mas isso foi muito melhor nos quadrinhos!"... enfim, papo de nerd chato, mesmo.

A primeira temporada terá 6 episódios. Boatos davam por certo a renovação da série para uma segunda temporada antes mesmo do primeiro episódio passar na TV, mas isso já foi desmentido...
Porém não por muito tempo, se depender do público! The Walking Dead bateu recordes nos EUA na sua noite de estréia, tendo a melhor audiência entre as estréias da TV a cabo do ano e se tornando também um recorde para seu próprio canal, o AMC!

Se conseguir manter o ritmo do primeiro episódio e corrigir suas falhas, The Walking Dead tem tudo para se tornar um novo clássico da televisão.
Vamos torcer, porque pelo que mostrou este primeiro episódio (e pelo que já foi mostrado nos quadrinhos), ela merece muito!

PS: Vale dizer que a Fox, para adequar a série à sua programação, resolveu cortar cerca de 15 MINUTOS do episódio original! Claro que eu não posso chegar aqui e dizer pra vocês baixarem a série ao invés de depender do canal, mas... bem... baixem!!!

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Pequenos Heróis


(post exclusivamente publicado na terça-feira, já que este blog estava às traças a tempo demais... na segunda a Renatinha volta a postar e daí as coisas voltam ao normal!)

Às vezes a gente se depara com uma HQ nacional tão bacana que te obriga a abrir seus horizontes para um ponto muito além das tradicionais histórias em quadrinhos norte-americanas de super-heróis.
Temos os álbuns do Bá e do Moon, o projeto MSP50 (do qual a gente já falou por aqui), a série Mondo Urbano, as coletâneas do Laerte, o livro Cachalote... trabalhos que acabam se destacando nas prateleiras antes mesmo que você se de conta de que está olhando para uma HQ 100% brazuca.

O álbum Pequenos Heróis, lançado pela Editora Devir especialmente para livrarias, é o perfeito exemplo disso.

O escritor e editor Estevão Ribeiro reuniu um time invejável de desenhistas para, em histórias curtas, diretas e sem diálogos, homenagear à sua maneira os super-heróis com os quais cresceu. Não na imagem dos ícones que conhecemos, mas na forma de suas ações. Não nas figuras musculosas e imponentes dos quadrinhos, mas nas almas de... crianças. Crianças que, independente do gênero ou da classe social, precisam lidar com as mais diversas (e grandiosas) situações e encontrar o heroísmo dentro de si mesmos.
Preciso inclusive destacar aqui a história "O Garoto das Trevas", desenhada por Emerson Lopes, na minha opinião a mais divertida dentre as 8. Também se destacam "Superbro", desenhada pelo coeditor do álbum, Mário César, e "O Garoto de Marte", com arte da dupla Ric Milk & Dandi.

E se este primeiro volume homenageia os personagens da editora DC, a já prometida continuação do projeto será baseada nos personagens da editora Marvel.

Estevão Ribeiro mostra que, antes de "salvar o mundo" e "combater o mal", o heroísmo está nas pequenas ações.
O heroísmo está em fazer a diferença.

Ao final da leitura, Pequenos Heróis te deixa com aquele sorriso bobo nos lábios, fruto do reconhecimento de um trabalho muito bem-feito e inspirador.

Tão inspirador quanto apenas um super-herói pode ser.

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Revolução de RanXerox


O grandão repulsivo com uma faca enfiada no peito na imagem que ilustra este post é Ranx, um robô punk homicída criado por um estudante a partir de uma máquina de xerox, que devido a um curto-circuito em seu "cérebro" é incondicionalmente apaixonado por Lubna, a garota manipuladore e ninfomaníaca de 12 anos que ele carrega no braço, a quem satisfaz com sexo e drogas.

Essa é a premissa demente da HQ RanXerox, criada por Stefano Tamburini no final dos anos 70 como segmento da revista underground italiana Cannibale. Durante quase uma década, o personagem foi responsável por histórias que atingiam o auge do politicamente incorreto e da violência gratuita, seja socando bebês no metrô, seja espancando qualquer um que se meta com a sua garota ou que não tenha seu gosto musical. Mais que um personagem clássico, tornou-se um ícone da contracultura e referência imediata para gente como Quentin Tarantino e qualquer um que se use da violência e do absurdo como ferramentas para criar uma crítica social devastadora.
RanXerox merece tanto respeito cultural quanto as HQs de um Crumb, ou a obra de um Bukowski, ou a música de um Zappa.

Por aqui, os quadrinhos foram parcialmente publicados no final da década de 80 na saudosa e alternativa revista Animal, hoje ítem raro na coleção de qualquer um (aliás, se alguém encontrar em algum sebo, me avisa!).
Agora a editora Conrad lança uma edição de luxo com toda a obra do personagem, que teve vida curta devido a uma overdose que matou seu criador.
Vale a pena dar os parabéns pra editora, por lançar um material tão clássico com um acabamento tão bacana, que conta ainda com um prefácio de Rogério de Campos (criador e editor da revista Animal e "homem-forte" da Conrad) e alguns desenhos do personagem. Capa dura e um preço justo.
Recomendadíssimo!

RanXerox mostra um futuro pessimista sob a visão do único ser ainda capaz de ter algum sentimento.
Uma máquina de xerox.

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mais Cinquenta


Há um ano atrás, em comemoração ao cinquentenário da carreira do Maurício de Sousa, foi lançado o MSP 50, um álbum especial retratando os personagens criados pelo desenhista no traço e na visão de 50 artistas nacionais.
O projeto acabou se tornando o "grande evento" dos quadrinhos brazucas do ano passado, o que acabou inspirando o idealizador da obra, o editor Sidney Gusman, a repetir a dose, escolhendo 50 outros nomes dos quadrinhos nacionais.
Afinal, talento é o que não falta.
E também não falta gente querendo homenagear o criador da Turma da Mônica.

E agora, menos de um ano depois, é lançado o álbum MSP+50.

Numa primeira leitura, esse novo volume já se mostra levemente superior ao primeiro.
Enquanto que no primeiro álbum a idéia era "uma homenagem aos 50 anos de carreira do Maurício", este segundo tem muito mais cara de "os personagens do Maurício na visão de outros artistas". Se no álbum anterior muitos escritores e desenhistas se prenderam ao conceito (muitas vezes de maneira chata) de aniversário, neste eles resolveram se soltar mais, se divertir mais com os personagens. Enquanto que o primeiro álbum era mais emocionante, este é definitivamente mais divertido.

Claro, não quer dizer que não existam os momentos chatos neste MSP+50, mas é menos do que os do MSP 50.

Se o primeiro álbum tinha nomes mais famosos ao grande público, como Laerte, Angeli e Ziraldo (só pra citar 3), este novo trabalho é muito mais "alternativo".
E isso acaba sendo muito bom, principalmente para quem acompanha os quadrinhos nacionais e já conhece os artistas.
Só pra citar algumas das melhores histórias... o trio Mateus Santolouco, Rafael Albuquerque e Eduardo Medeiros fizeram, respectivamente, uma história em três partes mostrando como a turma se conheceu. Roger Cruz coloca o Bugu dentro de um reality show, enquanto que Fernanda Chiella apresenta o primeiro encontro entre a Pipa e o Zecão (provavelmente o tema mais inusitado que eu poderia imaginar). Fábio Ciccone cria uma história divertidíssima com o Piteco, e Chico Zulio mostra a importância da imaginação. Caco Galhardo e Clara Gomez dão uma amostra de como foram inspirados pelos quadrinhos do Maurício de Sousa, e Mario Cau mostra por que nunca devemos deixar nossa infância para trás. Mozart Couto (que eu sempre imaginei fazendo uma história do Piteco) escolhe o Horácio para mostrar que, nos quadrinhos, tudo é possível, e Diogo Saito faz algo hilário (e até assustador) com a relação entre o Cebolinha e o Louco. Rafael Coutinho cria um conto apocalíptico e emocionante, e André Vazzios mistura filmes, mitologia e video-game na busca da turma pelo Um Gibi. E mantendo o padrão criado pelo volume anterior, a história que fecha este é provavelmente a mais emocionante de todas, criada pelo Romahs, capaz de deixar os olhos de qualquer marmanjo cheios de lágrimas.

MSP+50, assim como o primeiro álbum, é item obrigatório na estante de qualquer pessoa que, como eu, aprendeu a ler e cresceu lendo os quadrinhos do Maurício de Sousa. E ainda que não seja uma completa unanimidade (veja o por que neste post AQUI!), a influência que ele exerceu - não só nos quadrinhos, mas em todo tipo de arte nacional - está tatuada nestas duas obras.

Para os que lerem este MSP+50, só resta uma pergunta no final:
Afinal, por que diabos só o pé do Cebolinha tem dedos?

Quem sabe o já anunciado terceiro volume consiga uma boa resposta...

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Testamento


Não importa o que façam, histórias em quadrinhos sempre serão considerados um hobby infantil, imaturo.
Principalmente as de super-heróis, válvulas de escape das pessoas com baixa auto-estima, que preferem vivem em um mundo de fantasia a encarar a realidade.

Mas quem pensa isso acaba tão perdido no próprio preconceito que mal imagina a carga de realidade que existe nas HQs.

Durante a semana eu li uma HQ chamada "Magneto: Testamento".
Os mais desavisados talvez olhem o nome Magneto no título e se lembrem apenas do vilão colorido das histórias e dos desenhos animados. Mas esqueçam isso por um minuto.
Longe de ser sobre super-heróis e vilões, a história em questão se passa na Alemanha durante a ascenção do nazismo, pelos olhos de um garoto judeu chamado Max Eisenhardt, que precisa aprender a sobreviver com sua família durante a 2ª Guerra Mundial.
Esqueça os superpoderosos coloridos, aqui o que encontramos é violência, intolerância, campos de concentração, morte...

Aqui, o que encontramos é a realidade.

Eu poderia dizer que esse garoto, Max Eisenhardt, é quem se tornará o vilão Magneto. Mas isso não faz diferença. Não espere ver um cara voando e salvando os judeus das garras dos nazistas. Não espere ver um homem numa roupa colante socando a cara de Hitler e devolvendo a liberdade ao mundo.
Não existe superpoderes nessa história.
Sem ser fantasioso, piegas ou exageradamente emotivo, essa HQ é um verdadeiro estudo sobre o horror do nazismo no mundo real, que nos ajuda a relembrar algo que nunca deveria ser esquecido ou relevado.
O tipo de história que todos deveriam conhecer.

A edição ainda fecha com uma história especial (e real) sobre a artista Dina Babbit, prisioneira de Auschwitz que foi obrigada a pintar retratos de prisioneiros ciganos (dando-lhes mais chance de se manterem vivos) para os nazistas e que agora luta para reaver seus quadros, que estão em posse do Museu de Auschwitz, que se nega a devolve-los.


Como em um último pedido, Max escreve uma carta contando sua história e clamando para que o mundo não deixe mais que um horror como aquele se repita.
Quase 70 anos depois do nazismo, é sempre bom que o mundo seja lembrado de tudo o que aconteceu.
Ainda que seja por uma arte considerada infantil, imatura, fantasiosa.

Mas que sabe como nenhuma outra mostrar os verdadeiros vilões.
Principalmente os reais...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Pequeno Livro do Rock


"Eu jamais tive uma overdose,
Não vi os Sex Pistols no Chalet du Lac,
Não estive no Bronx nos primórdios do hip-hop,
Não vi os Beatles ao vivo no Ed Sullivan Show,
Não fui aos shows do Elvis em 55,
Não compartilhei groupies com o Led Zeppelin,
Não sou um crítico de rock profissional,
Não tenho vontade de ser completo, objetivo ou de boa-fé.

Em suma, não tenho nenhuma legitimidade para escrever este livro, e foi por todas essas razões que eu mesmo assim o escrevi..."



É com essa confissão que o cartunista francês Hervé Bourhis começa sua obra, o Pequeno Livro do Rock.
E, com essa honestinada, ele acaba criando um elo com cada um de seus leitores.
Afinal, a grande graça de ser um fã de rock (ou de qualquer estilo musical) é que você não precisa ter vivido cada momento dessa história para poder aproveitá-la. Os fãs atuais não viram o Elvis ou o Sex Pistols ao vivo, não compartilharam groupies com seus ídolos, não são críticos profissionais... e, mesmo assim, são tão aptos quanto qualquer um para falar de música.

E é divertidíssimo saber o que o tal Hervé tem a dizer sobre tudo isso.

O Pequeno Livro do Rock conta toda a história do gênero, desde a criação do primeiro jukebox, quando o "rhythm and blues" ainda era conhecido como "race music", até os boatos de herpes genital do líder do Tokio Hotel, passando pelo surgimento do grunge e do britpop...
Tudo isso com uma linguagem divertidíssima, desenhos cartunescos na medida certa, sacadas engraçadíssimas e uma puta pesquisa sobre o assunto, com anotações que o desenhista mantém desde os 14 anos.
Por meio dos desenhos e um ritmo ágil, o livro consegue inclusive mostrar coisas como o surgimento do seminário musical NME (New Music Express) ou uma cena já icônica de um clipe do Blur apenas por meio de desenhos, que explicam mais que mil palavras. Afinal, o rock se alimenta da imagem tanto quanto da música.
E mesmo assim, o domínio do texto torna toda a leitura bem leve e, principalmente, informativa. Por exemplo, você sabia que o famoso "duckwalk" do Chuck Berry foi criado para esconder um rasgo em sua roupa durante um show em Nova York?

Tem também as sacadas geniais, como a relação de Frank Sinatra com o rock, Brian Wilson e a criação do álbum Smile ou as "Pop Battles", batalhas entre discografias de duas bandas (e confesso que, entre todoas as batalhas feitas, só concordei com um vitorioso... o que não estraga em nada a diversão que é saber as opiniões polêmicas do autor). Tem também coisas como capas de CDs desenhadas, listas pops e o relato de um ano na vida de Pete Doherty e da Amy Whinehouse, além de citações a fatos históricos, ao cinema, à literatura e à vida do cartunista.
E cada desenho aumenta a vontade do leitor de ir atrás de tudo o que é citado!

Uma coisa que pode ser estranha aos leitores é o quanto o autor cita bandas francesas desconhecidas por aqui (afinal, ele é francês. dããã). Mas em meio a tanta coisa, elas acabam aparecendo naturalmente.
Mas vale a pena notar que o Brasil não é esquecido, com citações a João Gilberto, Tropicalismo, Cansei de Ser Sexy, Sepultura e aos Mutantes (mostrados como "os Beatles brasileiros").

Qualquer fã vai perceber a falta de alguma banda, ou a falta de informações de alguma banda que possa julgar importante (e que até rende uma piada no final do livro).
Mas o prefácio citado no começo deste post acaba justificando qualquer "falha".

Quase um Guia Dos Curiosos da música, o livro é obrigatório para qualquer fã de música, história, quadrinhos, rock...
Podendo ser colocado tanto na prateleira de livros quanto entre a coleção de discos.

Recomendadíssimo!!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Kick-Ass: A HQ


Sempre que lançam um filme de super-heróis, nós fãs de quadrinhos somos sempre castigados com adaptações porcas dos filmes para as HQs.
Foi assim com os filmes do Homem-Aranha, do Hulk, do Demolidor, dos filmes mais antigos do Batman, do X-Men...
E o resultado é sempre algo extremamente tosco, sem criatividade, apressado e sem carisma, ficando muito aquém dos filmes adaptados. Normalmente são duas horas sendo resumidas em 30 páginas. Os momentos "originais" geralmente acabam tornando o trabalho ainda pior.
Engraçado (e triste, principalmente) a industria de quadrinhos querer adaptar algo já adaptado da própria indústria de quadrinhos, mas o importante é aproveitar ao máximo a marca do filme, que acaba tendo muito mais público que uma revista do Superman ou de qualquer outro personagem.
Por isso, nem da pra esperar muito dessas "adaptações das adaptações", produtos feitos de má-vontade, movidos apenas pela falta de originalidade e desejo de raspar o pote de ouro criado por uma franquia qualquer.


A HQ de Kick-Ass (falei do filme no meu último post, lembra?!) se encaixaria naturalmente nesse segmento, se não fosse por um único detalhe:

É a HQ, e não o filme, o produto original!


Criada pelo roteirista Mark Millar e pelo desenhista John Romita Jr, Kick-Ass (a HQ) acaba sendo um desperdício de boas idéias.
Millar tem o grande mérito de enxergar suas histórias em quadrinhos já em um formato cinematográfico enquanto trabalha. Tanto é que a adaptação para os cinemas começou a ser produzida logo após o lançamento do primeiro número da mini-série em 8 edições, e quando as filmagens começaram só haviam 3 edições. Sempre com a supervisão de Millar e a colaboração do John Romita Jr.
Talvez seja por isso mesmo que Kick-Ass (o filme) seja tão melhor que o produto original.
Muito, muito, muito, muito, MUITO melhor!!!
Palavra-chave: originalidade.

As idéias originais do filme (que são muito mais do que se possa imaginar) superam de longe todas suas contrapartes na HQ.
Tentando claramente parecer uma espécie de Garth Ennis (roteirista de quadrinhos criador de séries como Preacher e The Boys, famoso pela violência e pelo humor negro), Mark Millar mostra um sentimento no mínimo sádico com seus personagens, que acaba incomodando negativamente. Diferente do filme, onde a violência é essencial, nos quadrinhos ela pretende apenas chocar.
E nem mesmo isso ela consegue.
Todo o pretenso humor acaba se perdendo em constrangimento.

Mas o pior de tudo é que o ponto alto do filme acaba sequer existindo nos quadrinhos: o carisma de seus personagens.
No filme, é isso que te mantém de olhos fixos na tela, esperando pelo que acontecerá depois. Vc genuinamente se importa com aqueles personagens no momento que eles aparecem pela primeira vez. Mesmo no caso dos vilões. Mérito dos atores e do desenvolvimento de cada um no filme.
Não espere por isso nos quadrinhos. Os personagens são extremamente chatos! Millar se foca exclusivamente no personagem principal, fazendo-o um perdedor sem a mínima simpatia! Sério, você nem se importa se ele vai viver ou morrer. Morrer, aliás, parece até uma boa opção, no caso dele.
E os personagens coadjuvantes, como a Hit-Girl, o Big Daddy e o Red Mist - algumas das melhores coisas do filme - não passam de meros secundários mal-desenvolvidos na HQ.
Tudo acontece muito rápido, principalmente a cena de ação final, tão mal-conduzida, forçada e pouco criativa que da até vergonha.

Sorte que Kick-Ass (a HQ) conta com os desenhos sempre geniais de John Romita Jr... o que garante ao menos um 6,5, talvez até um 7 a qualidade da obra. É o que torna a leitura da mini-série mais interessante e suportável.
Não fosse por eles, a nota não passaria da mediocridade de um 5.

Não contente com tudo isso, a série foi lançada por aqui pela editora Panini (com o desnecessário sub-título "Quebrando Tudo" usado no cinema) em um encadernado custando cerca de 60 REAIS!!!
Apenas por conta de uma desnecessária capa dura.
Bola fora da Panini, que desperdiçou a chance de atrair os leitores mais descompromissados.


Se Kick-Ass (a HQ) fosse apenas uma adaptação de um bom filme, seria apenas descartável.
Ser um produto original tão medíocre e sendo superado por sua própria adaptação, resta apenas uma palavra...

Humilhante!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Homem de Ferro 2


Pergunte a qualquer fã de quadrinhos qual é a verdadeira graça das HQs do Homem de Ferro.
Aposto que eles não responderão que é O Homem de Ferro.
Também não responderão que são as tramas, ou as sequências de ação.
E eles certamente não responderão que são os vilões ou as armaduras tecnológicas.

A verdadeira graça das HQs do Homem de Ferro tem nome, sobrenome e bigodinho:

Tony Stark!

O verdadeiro trunfo das histórias do Homem de Ferro é o homem fora da armadura, um cara narcisista ao extremo, alcoólatra, arrogante, mulherengo, vaidoso e até egoísta. Um cara que realmente acredita que todo o mundo gira ao seu redor. Um personagem tão odioso... que é simplesmente impossível odiá-lo.
As melhores sagas do personagem (que podem aliás ser contadas nos dedos de uma mão) tem o foco no lado mais humano do herói, como seus vícios, suas falhas, seus equívocos, suas decisões.
O Homem de Ferro, assim como a maioria dos heróis da editora Marvel, serve na maioria das vezes apenas como coadjuvante para a sua identidade secreta.

E, para a nossa sorte, a Marvel entende que a história nunca é sobre a máscara.
É sobre o rosto debaixo da máscara!

Por isso não é surpresa nenhuma que Homem de Ferro 2, terceiro filme produzido pela Marvel Estudios, pertença completamente a Tony Stark.
Afinal, o grande sucesso do primeiro filme se deve ao personagem e ao ator que o interpreta, o sempre brilhante Robert Downey Jr.! Portanto, nada mais lógico que dar ao público ainda mais daquilo que ele tanto adorou!!
E isso fica ainda mais óbvio quando o diretor Jon Favreau faz com que atores do porte de Mickey Rourke, Gwyneth Paltrow, Don Cheadle, Scarlett Johansson, Sam Rockwell e Samuel L. Jackson façam apenas figuração para os momentos em que seu ator principal não está em cena.
Nick Fury? Máquina de Combate? Viúva Negra? Justin Hammer? Todos eles são sim muito legais, mas o filme pertence ao Tony Stark, e deixa isso bem claro em cada cena.
Sequências de ação? Sim, elas existem, e estão mais impressionantes que nunca! Mas estão longe de ser a graça do filme.
Afinal, este não é um filme de ação. É um filme baseado em uma HQ, o que é muito diferente.

E se o filme é inteiro do personagem, o personagem também está inteiro no filme.
Se no filme anterior ele já mostrava todas suas características negativas, neste ele as mostra com ainda mais dedicação.
Stark se mostra ainda mais arrogante, fazendo de uma audiência política seu show particular. Se mostra ainda mais festeiro, ficando perigosamente bêbado em sua festa de aniversário e se exibindo em sua armadura para os convidados. Se mostra ainda mais egoísta, presunçoso e auto-destrutivo. Ridiculariza publicamente seus rivais e deixa claro que, se a paz é uma possibilidade, o mundo deve tudo a ele. Mostra o que existe de pior do caráter humano.
E assim, nos presenteia com um personagem ainda mais interessante.

Mas sejamos sinceros, Tony Stark não seria nada sem o roteiro bem amarrado de Homem de Ferro 2. Ou sem seus coadjuvantes, que mesmo com o aumento significativo de personagens, ganham ainda mais destaque nessa sequência. Pepper Potts tem ainda mais importância na vida de Tony. James Rhodes finalmente mostra a que veio. Até mesmo Happy Hogan ganha mais relevância e sua própria cena de luta. E tanto Nick Fury quanto a Viúva Negra mostram que serão de extrema importância nos futuros filmes da Marvel.

Sim, porque a maior graça dos filmes da Marvel Estúdios é a impressão de estar lendo uma história em quadrinhos, principalmente por criar a sua própria cronologia.
Os eventos que acontecem em Homem de Ferro refletem no filme do Hulk, que reflete em Homem de Ferro 2, que refletirá em Thor, Capitão América e no futuro filme dos Vingadores!!
Aliás, nem pense em sair do cinema antes dos créditos!!!
Nem! Mesmo! Pense!

Se foi a editora DC quem criou o conceito de super-herói com o Superman, Batman, Flash e Lanterna Verde, então foi a Marvel quem ensinou que o que realmente importa não é o lado super, e sim o lado humano. E é isso que ela prova no cinema.
Tony Stark é o que existe de pior em um ser-humano... mas também é fragil, trágico. Se em um momento você o enxerga como um bêbado festeiro, em outro você acaba vendo um homem que simplesmente não se sente à vontade dentro de sua própria pele. Se numa hora você vê alguém arrogante, em outra você percebe que é exatamente isso que o mundo espera dele, e não há como fugir.
Por mais que você tente odiá-lo, você acaba se identificando com ele.

E, no final, enxerga a si mesmo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Para Relembrar: Homem de Ferro


(em homenagem ao lançamento de Homem de Ferro 2 nesta sexta-feira, estou dando um Ctrl V aqui no Two Cold Fingers de um texto meu publicado no finado blog PuroPop sobre o primeiro filme. Sabe, pra dar uma refrescada na memória. Semana que vem prometo uma crítica abalizada - ou não - sobre a sequência!!)

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Sábado, dia 1o de maio...
Estava eu vasculhando esse blog sobre cultura pop, coisas nerds e afins quando me dei conta de uma coisa...


COMO DIABOS UM BLOG QUE TRATA DE CULTURA POP, COISAS NERDS E AFINS NÃO TEM UM REVIEW DO MAIOR ORGASMO NERD DO ANO, LANÇADO MAIS DE UMA SEMANA ATRÁS?????


Bom, como minha memória é uma porcaria, voltei ao cinema ontem para assistir de novo ao filme... o que não foi nenhum sacrifício, acreditem!!!
Fui ainda com dois amigos que não conhecem bosta de quadrinhos (a não ser pelo tanto que EU falo), e que não teriam nenhum pré-conceito nerd quanto ao filme.
No cinema, pelo menos 70% das pessoas nunca tinham ouvido falar do personagem... outras 20% conheciam malemenos o desenho animado dos anos 70... e uns poucos gatos pingados tinham total noção de quem era Tony Stark! Levando em consideração que na primeira vez que eu assisti o filme eu estava rodeado de nerds desconhecidos que urravam a cada citação quadrinística feita, desta vez a experiência foi bem diferente.

Para começar, basta dizer que minha primeira sessão de Homem de Ferro, na segunda feira da semana passada, já me fez colocar o filme na minha lista das 5 melhores adaptações feitas para o cinema.
Dito isso, vamos à segunda sessão, quando eu pude deixar meu lado "fã-eufórico" um pouco de lado...


Robert Downey Jr é um gênio!!! Depois de todos os altos e baixos da sua carreira (e meu Deus, foram muitos), ele já se provou um dos melhores, mais versáteis e carismáticos atores da sua geração e do cinema atual. O cara pode fazer tudo!!

Jon Favreau é um... bem, o cara dirigiu algumas comédias românticas e fez pontas em seriados como Friends, por exemplo. É também dele o mérito de interpretar o personagem Foggy Nelson na adaptação do Demolidor.

Gwyneth Paltrow é... a mulher do vocalista do Coldplay. Ela ganhou um Oscar, fez alguns filmes chatos, outros bons, mas nunca se mostrou mais do que uma atriz "média".

Jeff Bridges é foda... mas vc provavelmente demoraria para reconhecê-lo se não soubesse que ele está no filme.

Terrence Howard é... quem?

Com um elenco e um diretor desses, não havia como saber o que esperar da adaptação do Homem de Ferro, primeira produção da Marvel nos cinemas de forma autônoma (Homem-Aranha teve produção da Sony, e X-Men foi produzido pela Fox).
Portanto, o filme foi a melhor surpresa possível para os fãs de quadrinhos!!!
Um filme que respeita o personagem e a cronologia... e o principal, respeita os fãs!
As atuações estão excelentes, principalmente a personificação do personagem principal... vc não vê mais Robert Downey Jr, vc vê Tony Stark!
Está tudo lá... Gwyneth está adorável como Pepper Potts, Terrence Howard ficou bem com o papel de Jim Rhodes (que deve ganhar maior destaque nos próximos filmes, como o herói War Machine), Bridges mostra-se um ótimo vilão na figura de Obadian Stane e até o diretor faz uma ponta como o motorista/guarda-costas Happy. Além disso, a origem é extremamente fiel aos quadrinhos e podemos até ver os primódios de um demônio que provavelmente será o pior vilão de Tony Stark na sequência, marcada para 2010: o alcoolismo.
Além disso, o filme está recheada de citações que farão a alegria dos fãs (cuidado... spoilers!!!):

- quando Tony liga para Rhodes, a música que toca é a do desenho animado clássico do personagem.

- todos brincam que ninguém vai engolir a história de que o Homem de Ferro é na realidade um guarda-costas de Tony Stark... desculpa que foi usada por décadas nos quadrinhos.

- todo leitor reconhecerá a agência de inteligência que "persegue" Tony durante o filme.

- em certo momento, Rhodes olha para uma armadura de Tony e diz, em um suspiro: "quem sabe na próxima". Essa é a deixa para o surgimento já anunciado do herói War Machine.

- a maneira como Stark revela ao mundo que é o Homem de Ferro é bem similar à dos quadrinhos, também em uma coletiva de imprensa.

- e finalmente, a citação master de todo o filme... NICK FUCKING FURY aparece, em toda sua glória, e ainda fala sobre uma iniciativa do governo: a Iniciativa Vingadores!!! Portanto, não façam como boa parte do público do cinema faz... nunca deixem a sala antes do fim dos créditos!!!!! NUNCA!!!!!


Resumindo, Homem de Ferro é sim uma das melhores adaptações de um personagem dos quadrinhos!
Ótimo na história, nas atuações, na direção e nos efeitos especiais!!!
Um ótimo filme para o grande público que mal conhece o personagem (como meus dois amigos puderam comprovar)... mas uma homenagem a todos nós, fãs de longa data!

E é por isso que todos nós saímos do cinema cantando:

Tony Stark, tira a onda
Que é cientista espacial
Mas também é Homem de Ferro
Elétrico, atômico, genial
Dura armadura, Homem de Ferro
É lenha pura, Homem de Ferro

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Batman de Frank Miller


(Post dedicado ao Fran, ao Gabriel, ao EJT e a outros nerds por aí...)

Poucas pessoas podem se gabar de serem divisoras de águas.
E do mesmo jeito que o mundo se divide entre A.C. e D.C., o mundo de Batman se divide em A.F. e D.F.

Antes e depois de Frank Miller.

Desde os anos 70, depois de amargar fases cômicas e ingênuas, o herói estava tentando voltar às suas origens sérias pelas mãos da dupla Neil Adams e Denny O’Neil.
Já consagrado devido a sua passagem pelo título do Demolidor, Miller foi chamado pela DC para revitalizar seu personagem que mais havia sofrido devido ao código de censura americano e à perseguição promovida pelo psiquiatra Fredric Wertham. Mas como alterar de forma tão drástica um personagem icônico que fora criado como um detetive violento que não se importava em deixar os criminosos morrerem, mas que passou a ser um personagem cômico e ridicularizado?

A resposta está em O Cavaleiro das Trevas, que mostra o futuro de Gotham City, dominada pelo crime e com um Batman violento, masoquista e... que se diverte com tudo isso!
A HQ mostra o confronto definitivo entre o Batman e o Coringa, além da luta final entre o Homem Morcego e o Homem de Aço (também cientificamente conhecido como Superman).
Naquele momento, qualquer lembrança do Batman preso em uma supergeringonça e se salvando ao tirar do cinto algo extremamente conveniente (“Oh, meu Deus, estou preso nessa guilhotina que se ativará assim que aquele rato roer a corda e soltar a lâmina. Ainda bem que eu estou com meu bat-dissolvente de correntes e meu bat-queijo!”) foi apagada e devidamente substituída pela imagem brutal de um personagem perturbado e até com certos requintes de crueldade.

A série, claro, foi um sucesso, principalmente por ter sido lançada quase que simultaneamente com outro divisor de águas, Watchman, do roteirista Alan Moore.

Logo depois, Frank Miller se juntou ao desenhista David Mazzuchelli e criou a origem definitiva do herói, Batman – Ano Um. E todas as histórias do personagem escritas depois dessa fase se baseiam nessas duas histórias.

E quando já estava no topo do mundo, Frank Miller resolveu criar sua própria série pela editora Dark Horse, o sucesso Sin City. Enquanto isso, ao longo da década de 90, os quadrinhos resolveram se tornar mais violentos e sombrios (em grande parte por influência da obra do sr. Miller), onde o que importava eram os músculos dos heróis, o sangue-frio dos anti-heróis e os corpos das heroínas. Foi a época em que fizeram sucesso personagens como Wolverine, Elektra, Venom e Justiceiro, e que culminou na criação da Editora Image.

Na DC isso não passou batido. O Arqueiro Verde se tornou sombrio (e depois morreu), o Lanterna Verde enlouqueceu (e depois morreu), o Aquaman teve a mão decepada, o Superman morreu (e depois voltou). Personagens femininas como Mulher Maravilha e Mulher Gato eram desenhadas com formas completamente desproporcionais, para atrair a atenção masculina. Mas e o que fazer com um personagem que já era a personificação da escuridão? Bem, vamos torná-lo ainda mais sombrio. Ao menos essa roupagem combinava bem com o personagem...

Foi então que aconteceu o que todos esperavam... mas não da maneira que todos esperavam.

Frank Miller anunciou que voltaria a escrever o personagem que o alçou às alturas. Mas não seria uma história qualquer, ou mesmo um título regular. Seria a continuação da série que havia escrito 15 anos antes, O Cavaleiro das Trevas. A notícia, claro, dividiu opiniões... assim como a continuação em si. Com um roteiro confuso e desenhos estranhos, Miller criou uma espécie de “anti-Cavaleiro das Trevas”, com um visual colorido e um clima baseado nas histórias dos anos 60. Cavaleiro das Trevas 2 não é uma história ruim, mas é impossível ler uma página sequer sem compará-la à história original. E comparar QUALQUER COISA com Cavaleiro das Trevas é simplesmente uma grande covardia.

De lá pra cá, Frank Miller se tornou uma espécie de pária para alguns leitores, mesmo para alguns de seus fãs mais fiéis. Depois de Cavaleiro das Trevas 2, ele disse ter interesse em escrever uma história que envolveria o Batman versus o terrorista Osama Bin Laden, entre outras excentricidades. Tornou-se diretor com o filme baseado em sua criação, Sin City, apenas para enterrar sua carreira cinematográfica cometendo a sua péssima visão do clássico Spirit.

Com o lançamento da linha All-Star da DC que visava a criação de histórias fora da cronologia normal, foi anunciado que a série do Batman seria escrita por Miller e desenhada pelo pop-star Jim Lee, motivo de euforia da maioria dos bat-fãs. Mas o roteirista resolveu aproveitar a liberdade dada pela linha All-Star para mudar tudo no Homem Morcego. Ele agora é um verdadeiro fdp, que profere palavrões enquanto quebra os ossos de bandidos e amedronta um jovem Dick Grayson, mesmo que este tenha acabado de ver seus pais morrerem. A versão “Dirty Harry” do personagem não agradou a maioria dos leitores, mas já foi anunciado que a série deve continuar por muito tempo...

Frank Miller já passou da fase de se preocupar com a opinião dos outros. Muitos leitores dizem que ele apenas procura agora chocar o máximo de pessoas possíveis com seus roteiros grosseiros e cada vez mais pessoais. Como por exemplo criando um Batman violento, masoquista, perturbado, brutal, com requintes de crueldade e que se diverte com tudo isso!

Do mesmo jeito que ele chocou o mundo há mais de 22 anos, com a criação do clássico definitivo do Cavaleiro das Trevas.

E já devíamos ter aprendido que, enquanto Frank Miller continuar com esse desejo de chocar os admiradores da sétima arte... nós, os leitores, só temos a ganhar.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Angel Villa, Laerton e Glauquito


Acho que era lá por 1995, quando eu tive o meu primeiro contato com quadrinhos nacionais.
Não, não estou falando de Turma da Mônica... os quadrinhos nacionais que eu digo são muito mais underground, muito mais politicamente incorretos, onde os três protagonistas se divertiam com violência, sexo, drogas e as mais diversas perversões, assassinando indios e infinitos garotos de sombreiro chamados Miguelitos.

Foi com mais ou menos uns 9 anos que eu comprei uma revista chamada "Los 3 Amigos"!

Os 3 personagens eram alter-egos de seus criadores, os cartunistas Angeli, Laerte e Glauco.
Angeli, criador de personagens clássicos como Rê Bordosa, Bob Cuspe, Wood & Stock e os Skrotinhos.
Laerte, mestre em colocar um espelho na frente da sociedade e mostrar como realmente somos, tanto nosso melhor quanto, principalmente, nosso pior.
E Glauco, de longe o mais anárquico dos três, aquele que colocava em suas tiras o que a maioria das pessoas tem vergonha só de pensar, aquele que fazia com que o público se identificasse com tarados, drogados, ninfomaníacas, bêbados e profetas dos apocalipse.

Não apenas 3 cartunistas, como também - eu logo iria descobrir - os 3 maiores cartunistas do Brasil, influências obrigatórias para qualquer desenhista que se preze!
Gênios dos desenhos, das piadas, das críticas sociais, das relações humanas!
Simplesmente gênios!


Na semana passada, um louco colocou fim nas histórias de um desses 3 amigos.
Invadiu a casa do Glauco e o matou a sangue frio, para depois assassinar também seu filho Raoni.


Juro que nem sei direito o que escrever por aqui.
Só queria, de algum modo, homenagear um dos maiores cartunistas brasileiros, que em contraste ao seu bom-humor, acabou morrendo por conta de uma tragédia sem nenhuma explicação ou desculpa.
Uma loucura que colocou fim na vida de alguém que só se preocupava em colocar um sorriso no rosto daqueles que liam todos os dias suas tiras.

Triste perceber que, mesmo com toda sua importância para os quadrinhos brasileiros, ainda exista muita gente que não conhece o artista, ou que só o conheceu por conta do que saiu nos jornais nos últimos dias.

Tudo o que eu posso esperar é que o sensacionalismo dessa tragédia não apague seus anos de serviço ao humor, esta sim sua marca registrada.


. . . e que os novos talentos que estejam nascendo tenham ao menos metade do talento do mais maluco daqueles três amigos.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Perigo do "Politicamente Correto"


Deus criou a luz, o céu, os mares e a terra.
Daí ele criou as plantas, os animais, os peixes e os pássaros.
Depois ele criou o ser-humano
E, em determinado momento, talvez por estar entediado ou algum outro motivo fútil, Deus criou o livre arbítrio.

E foi então que tudo descambou!!!


Ok, não levem tão a sério.
Claro que é importante respeitar a qualquer um que tenha opinião própria (coisa cada vez mais rara de se encontrar hoje em dia), por mais imbecil que seja essa opinião.
Mas ao mesmo passo que existe tanta gente sem opinião própria, existe também gente que não merece esse privilégio.

Há algumas semanas atrás o jornalista Dioclécio Luz escreveu um artigo publicado no site Observatório da Imprensa chamado "Violência na Turma da Mônica".
No texto, a Mônica é a personificação do bullying. A figura da Magali cria crianças obesas, o Chico Bento é uma visão elitista do campo e os personagens são sem personalidade, sem opinião e naturalmente conservadores.

No fundo, ler um texto desses é como ler "blá, blá, blá, tive uma infância triste, blá, blá, blá, fui uma criança frustrada, blá, blá, blá, preciso descontar em alguma coisa..."

Ter opinião própria é uma coisa.
Apelar para o politicamente correto é simplesmente babaquice!

O autor chega até a comparar a violência das histórias com outros quadrinhos, como Mafalda e Calvin.
Realmente, as histórias seriam muito mais divertidas caso a Mônica, ao invés de coelhadas, distribuisse frases filosóficas de efeito.
E se o jornalista realmente enxerga as tiras do Calvin como algo inofensivo e correto... bom, ele definitivamente precisa ler um pouco mais.

Ao final do texto, Dioclécio Luz afirma que os quadrinhos do Maurício de Sousa (escrito erroneamente com Z durante todo o artigo) são exageradamente idolatrados.
Em resposta a isso basta apenas dar como exemplo o livro MSP50, lançado no ano passado, que reúne 50 dos maiores artistas nacionais para homenagear o quadrinista. E um novo livro, chamado MSP+50 já está sendo preparado para o segundo semestre de 2010. E não deve parar por aí.
São todos os maiores artistas dos quadrinhos brasileiros, como Angeli, Laerte, os gêmeos Moon e Bá, Ziraldo, Ivan Reis, Marcelo Campos, Rafaél Grampá... artistas que são influência até no exterior homenageando sua influência maior.
Isso sem contar o respeito que ele tinha do maior mestre que as HQs já tiveram: Will Eisner!

Exageradamente idolatrado my ass!
MERECIDAMENTE idolatrado!!!

O que o sr Dioclécio Luz fez não difere em nada com o que fez um certo Dr. Fredric Wertham com os quadrinhos na década de 50.
Mas até o próprio Dr. Wertham se arrependeu de suas ações tempos depois.
Apenas demosntrando como esse tipo de visão... de "opinião própria"... já está mais que ultrapassado!!

Algumas pessoas não entendem que um mundo "politicamente correto" poderia até ser um mundo com menos violência, menos corrupção, menos injustiças...

Mas também seria muito mais sem graça.
Sem magia.

E é aí que o Politicamente Correto acaba tornando-se muito mais perigoso do que tudo aquilo que ele persegue.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Cash


Os artistas se tornaram chatos.

Quando tablóides e programas de TV revelam cada detalhe insignificante da vida das celebridades e a Internet possibilita que qualquer pessoa invada a privacidade de qualquer pessoa (famosa ou não), fica difícil encontrar alguém realmente interessante no meio de tudo isso.
Por isso, diante de tantas pessoas que disponibilizam sua intimidade pelo preço certo, é um achado encontrar tantas biografias sobre o mesmo indivíduo e que não conseguem revelar quase nada sobre sua vida.

É por isso que vale tanto a pena ler a história em quadrinhos "Johnny Cash - Uma Biografia".
É a prova de que algumas histórias são tão interessantes que acabam se escrevendo sozinhas.

Publicada em 2006 na Alemanha mas lançada aqui no Brasil apenas no final do ano passado, a HQ parte do mesmo momento que o filme com o Joaquin Phoenix (que estava em produção ao mesmo tempo que a história em quadrinhos): o concerto na prisão Folsom, que deu origem ao álbum ao vivo "Johnny Cash At Folsom Prison". Mas as similaridades entre as duas biografias acabam por aí.
Enquanto que o filme prefere romantizar a vida do cantor, focando em seu relacionamento com June Carter, o álbum em quadrinhos pode realmente ser chamado de biografia, mostrando de forma muito mais crua uma vida regada por álcool, drogas e demônios internos.
Ainda assim, as duas obras de certa forma se complementam, com uma mostrando fatos que não estão na outra. É até divertido juntar as informações e ter um retrato mais completo do músico.

"Johnny Cash - Uma Biografia" tem seus momentos cansativos, e peca principalmente pelos desenhos irregulares e por alguns diálogos piegas e irreais... mas ganha muitos pontos por mostrar o lado mais obscuro de Johnny Cash e principalmente pela sequência final, mostrando um astro velho e solitário em fim de vida (inclusive mostrando a gravação da música Hurt, cujo clipe eu recomendo MUITO e considero um dos melhores já feitos. É só clicar aqui!). Johhny Cash morreu em 2003.
Mas o grande trunfo da biografia é a quadrinização das músicas do cantor, como A Boy Named Sue, Folsom Prison Blues e a clássica Cocaine Blues. Ao mesmo tempo que serve como uma grande homenagem aos fãs, serve também para que o público maior se interesse pela obra. Afinal, antes de tudo, Johnny Cash era um contador de histórias, como ele mesmo diz a certa altura de sua vida.

Mesmo com seus pontos altos, a obra está longe de ser a biografia completa de Johnny Cash... e isso é mais um ponto a favor.
É o mistério que o envolve que acaba tornando sua vida ainda mais interessante.

E enquanto esses segredos continuarem tão bem guardados, a vida de Johnny Cash continuará sendo, merecidamente, objeto de culto para qualquer fã de música.