"Eu jamais tive uma overdose,
Não vi os Sex Pistols no Chalet du Lac,
Não estive no Bronx nos primórdios do hip-hop,
Não vi os Beatles ao vivo no Ed Sullivan Show,
Não fui aos shows do Elvis em 55,
Não compartilhei groupies com o Led Zeppelin,
Não sou um crítico de rock profissional,
Não tenho vontade de ser completo, objetivo ou de boa-fé.
Em suma, não tenho nenhuma legitimidade para escrever este livro, e foi por todas essas razões que eu mesmo assim o escrevi..."É com essa confissão que o cartunista francês Hervé Bourhis começa sua obra, o Pequeno Livro do Rock.
E, com essa honestinada, ele acaba criando um elo com cada um de seus leitores.
Afinal, a grande graça de ser um fã de rock (ou de qualquer estilo musical) é que você não precisa ter vivido cada momento dessa história para poder aproveitá-la. Os fãs atuais não viram o Elvis ou o Sex Pistols ao vivo, não compartilharam groupies com seus ídolos, não são críticos profissionais... e, mesmo assim, são tão aptos quanto qualquer um para falar de música.
E é divertidíssimo saber o que o tal Hervé tem a dizer sobre tudo isso.
O Pequeno Livro do Rock conta toda a história do gênero, desde a criação do primeiro jukebox, quando o "rhythm and blues" ainda era conhecido como "race music", até os boatos de herpes genital do líder do Tokio Hotel, passando pelo surgimento do grunge e do britpop...
Tudo isso com uma linguagem divertidíssima, desenhos cartunescos na medida certa, sacadas engraçadíssimas e uma puta pesquisa sobre o assunto, com anotações que o desenhista mantém desde os 14 anos.
Por meio dos desenhos e um ritmo ágil, o livro consegue inclusive mostrar coisas como o surgimento do seminário musical NME (New Music Express) ou uma cena já icônica de um clipe do Blur apenas por meio de desenhos, que explicam mais que mil palavras. Afinal, o rock se alimenta da imagem tanto quanto da música.
E mesmo assim, o domínio do texto torna toda a leitura bem leve e, principalmente, informativa. Por exemplo, você sabia que o famoso "duckwalk" do Chuck Berry foi criado para esconder um rasgo em sua roupa durante um show em Nova York?
Tem também as sacadas geniais, como a relação de Frank Sinatra com o rock, Brian Wilson e a criação do álbum Smile ou as "Pop Battles", batalhas entre discografias de duas bandas (e confesso que, entre todoas as batalhas feitas, só concordei com um vitorioso... o que não estraga em nada a diversão que é saber as opiniões polêmicas do autor). Tem também coisas como capas de CDs desenhadas, listas pops e o relato de um ano na vida de Pete Doherty e da Amy Whinehouse, além de citações a fatos históricos, ao cinema, à literatura e à vida do cartunista.
E cada desenho aumenta a vontade do leitor de ir atrás de tudo o que é citado!
Uma coisa que pode ser estranha aos leitores é o quanto o autor cita bandas francesas desconhecidas por aqui (afinal, ele é francês. dããã). Mas em meio a tanta coisa, elas acabam aparecendo naturalmente.
Mas vale a pena notar que o Brasil não é esquecido, com citações a João Gilberto, Tropicalismo, Cansei de Ser Sexy, Sepultura e aos Mutantes (mostrados como "os Beatles brasileiros").
Qualquer fã vai perceber a falta de alguma banda, ou a falta de informações de alguma banda que possa julgar importante (e que até rende uma piada no final do livro).
Mas o prefácio citado no começo deste post acaba justificando qualquer "falha".
Quase um Guia Dos Curiosos da música, o livro é obrigatório para qualquer fã de música, história, quadrinhos, rock...
Podendo ser colocado tanto na prateleira de livros quanto entre a coleção de discos.
Recomendadíssimo!!