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sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Bolha


Por Brancatelli

Eu queria enfiar todo mundo que eu amo numa bolha.
Pra que nunca pudessem ser atingidos por nenhum mal.

Queria enfiar numa bolha todas as pessoas que eu amo, e as pessoas que as pessoas que eu amo amam.
Queria afastar delas qualquer pensamento ruim, qualquer sensação ruim, qualquer sentimento ruim, qualquer situação ruim.
Queria poder usar o meu corpo como barreira entre o mundo e minha bolha, e canalizar tudo de ruim, e lidar com isso sozinho, do meu jeito.
Queria poder ser um escudo, e atrair pra mim qualquer mal que pudesse atingir minha bolha.
E que todas as lágrimas fossem só minhas.
E que todo o peso fosse só meu.

E minha bolha flutuaria, solta.
Livre de qualquer mal.

Eu queria enfiar todo mundo que eu amo numa bolha.

E proteger essa bolha com a minha própria vida.

E fazer da sua tristeza a minha tristeza.
E fazer da sua dor a minha dor.
E fazer das suas lágrimas as minhas lágrimas.

Minhas. E só minhas.

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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Pensamentos aleatórios e perdidos sobre um álbum do ano passado e para os quais ninguém mais deve dar a mínima


por Brancatelli


Véi.
Na boa.
Tipo assim, papo sério.

Eu descobri meu problema com o Angles, o último álbum lançado pelos Strokes.

Sei que ninguém me perguntou nada, mas eu venho tentando organizar meus pensamentos sobre esse CD desde o lançamento, em março do ano passado.
Acho que finalmente consegui.
Tipo assim.. acho.

Seguinte!

Uma banda tem todo o direito de dar uma pausa.
Os integrantes têm o direito de enjoar da cara uns dos outros.
Entendo que fazer a mesma coisa, com as mesmas pessoas, ano pós ano, show pós show, disco pós disco, deve cansar pra caceta.
A pausa é necessária até para a própria sobrevivência da banda.

Entendo, respeito, acho até bonito.
Meu problema, rapá, é mais embaixo.

É assim, não sou contra experimentações. Acho que elas devem acontecer, e se uma banda de rock quiser fazer um disco de pagode, eu vou apoiar 100%. Porra, Radiohead, Arctic Monkeys e Los Hermanos estão entre as minhas bandas favoritas. Se o Weezer quiser fazer um disco de bolero, se o Belle & Sebastian quiser fazer um CD de metal farofa, se o My Chemical Romance quiser fazer um álbum só com covers do Justin Bieber e se o Móveis Coloniais de Acaju resolver se aventurar no funk carioca proibidão, eu vou ouvir com toda boa vontade que tenho (é pouca, mas é o que tem).

O problema é uma banda parar por 5 anos e, de repente, resolver lançar um conjunto de músicas que apenas em alguns poucos momentos lembra o que a banda fazia.

Tivesse o Angles sido lançado dois ou três anos após o First Impressions of Earth (cujo único pecado é ser longo demais), eu teria recebido muito melhor do que recebi, e acredito que tivesse sido assim com boa parte do público que se decepcionou com o álbum na época.

O que me fode é que, 5 anos depois, quando um retorno da banda ainda era uma incógnita e todo mundo já tinha aceitado a idéia de que teríamos apenas os projetos individuais dos integrantes, o Strokes aparece com um álbum que não se parece em nada com o que os fãs esperavam.
Se você passa 5 anos sem dar noticias, véi, o mínimo que você deve fazer é dar aos fãs o que os fãs querem. É praticamente um compromisso. Se depois você quiser inventar, fazer algo diferente, ir por outros caminhos, substituir todos os instrumentos pelo coral do asilo da sua cidade ou fazer um CD inteiro só com barulhos de baleias (estilo Björk), ótimo. Mas o álbum de retorno deve ser um álbum pros fãs.
Eu, por exemplo, passei tanto tempo sem postar por aqui e to voltando com o que se espera de mim: reclamações desnecessárias e sem sentido sobre coisas as quais ninguém mais se importa.

Repetindo o pensamento principal:
O álbum de retorno deve ser um álbum para os fãs!

Cara, eu entendo que Angles seja o primeiro trabalho do Strokes como banda, sem a unidade dada exclusivamente pelas composições do Julian Casablancas, e nem é esse o problema. Se tivesse continuado assim, nas mãos do Julian, esse álbum certamente teria uma cara mais voltada para o eletrônico, como no CD solo dele, e seria a mesma situação. E tanto é que Under Cover of Darkness, única faixa que lembra de maneira legitima o Strokes das antigas (e que serve quase que de consolo da banda pros fãs) é atribuída ao grupo todo.
Então, se eles criaram Under Cover, porra, custava nada deixar as experimentações pra um disco seguinte né não?!

Lançar um álbum diferente não é errado. O único erro de uma banda é lançar um álbum ruim.
Mas deixar seus fãs esperando sem noticias por tanto tempo, criar toda a ansiedade de um novo lançamento e lançar um material diferente daquilo que os fãs querem ouvir.. pra falar a verdade, acho que tem até um pouco de egoísmo nisso.

É isso, amiguinhos.
Sei la se vocês entenderam o que eu quis dizer, e olha, to me lixando pra isso.
Não levem pro pessoal, mas to feliz por ter entendido o motivo da minha birra com esse álbum. Minha opinião continua parecida com a que eu escrevi na época do lançamento (se interessar, clicaquí!), mas agora eu sei o porque dela.

E sabendo o porque, o Angles acaba ficando bem melhor do que eu me lembrava.

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quinta-feira, 1 de março de 2012

Morte e renascimento de mim mesmo

Por Brancatelli

Vou confessar uma coisa aqui.
De uns tempos pra ca, minha cabeça não tem estado muito boa.

É engraçado, a gente sempre da a própria racionalidade como algo seguro, constante, mas não vemos que a racionalidade é um algo extremamente maleável.
Achamos que nossa consciência de hoje será a mesma amanhã, quando não poderíamos estar mais longe da realidade.
Nos iludimos que nossa personalidade de hoje é a mesma de ontem, e será igual até o dia da nossa morte.
E estamos apenas nos enganando.

Não estou falando de como mudamos gradativamente ao longo da vida.
Estou falando de mudanças bruscas, de uma hora pra outra.

Como acontece conosco todo dia.

E quando você começa a se acostumar com o seu “eu”, essa mudança vem como um soco no estômago, e você se vê obrigado a deixar pra trás aquilo que você era.
E bate aquele medo, quando você tenta de qualquer maneira se agarrar ao seu “eu” antigo.
O medo de perceber que ele já está morto, enterrado, queira você ou não.
E ele está, e você não pode fugir disso.

E você se percebe uma pessoa diferente.
Igual, só que diferente.

A confusão de você não pensar mais igual a como pensava ontem, de perceber que as coisas te afetam de uma maneira diferente de como te afetava, de não concordar com sua própria racionalidade.
Não deve existir desespero maior que perceber seu cérebro mudando sem poder fazer nada.
De se perceber deixando de ser o que era.

É assim que eu me sinto.
Pior que me sentir alguém diferente, essa mudança me reaproximou de alguém que eu não gosto nenhum pouco.

Me senti próximo de um “eu” passado que eu preferia esquecer.

Nós sempre achamos que mudamos para melhor.
Que evoluímos a medida que aprendemos com a vida, que adquirimos experiências diferentes, que levantamos de cada queda.
Cada lição, cada erro, cada tropeço, cada acerto.
Gostamos de acreditar nisso.

Então o que fazer quando percebemos que mudamos para pior?
Quando acordamos com uma mentalidade diferente, uma sensibilidade diferente.. e não gostamos nada dela?
Podemos tentar mudar, voltar ao que era, exumar o que já foi enterrado com a esperança de trazê-lo de volta à vida.

Ou você pode tentar entender aquilo que você se tornou.

Foi isso o que eu passei a semana tentando fazer.
Completamente sozinho, isolado.
Eu comigo mesmo.

O que eu tirei disso?
Acho que ainda não sei ao certo.

Mas eu percebi principalmente o que é importante na minha vida.
Porque é na solidão que você percebe a falta que faz um abraço, uma conversa.
A falta que faz outros olhos, outras vozes, outras vidas em torno da sua, te rodeando, te complementando.

Te completando.

Essa semana serviu pra me mostrar aqueles que são realmente importantes na minha vida.
E talvez melhor ainda.. serviu pra me mostrar que não são poucos.
Eu percebi que não importa o que esteja dentro da minha cabeça, se eu for consciente o bastante para manter comigo cada uma dessas pessoas, então eu estarei bem.
Se eu conseguir “racionalizar o emocional”, eu não preciso me afastar de mais ninguém, ou fazer com que se afastem de mim.

A solidão continua sendo importante, claro.. mas como disse um grande amigo meu, é melhor estar em boa companhia do que estar apenas com seu pessimismo.
E todas as risadas, abraços e beijos vão compensar essa constante luta comigo mesmo.
Disso eu tenho certeza.

Sei que não vai ser fácil.
Mas vai valer a pena.

Afinal, de que adianta ser você mesmo sem a companhia dos outros?


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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Ensaio sobre a ignorância


Por Brancatelli

Um cara e uma garota se deitam na mesma cama, num reality show transmitido 24h. Ela dorme, ele faz alguns movimentos estranhos.
No dia seguinte, as redes sociais estão abarrotadas de pessoas pedindo a expulsão imediata do rapaz, o acusando de estupro e exigindo sua cabeça numa bandeja.

Uma mulher é filmada chutando seu próprio cachorro.
O vídeo se espalha pelo You Tube. Pessoas compartilham as imagens passando o nome, endereço e todos os dados imagináveis da mulher. Ameaças de morte pipocam a cada compartilhamento.

O músico de uma banda de pop rock adolescente é perigosamente atingido por uma pedra durante um show da sua própria banda.
O vídeo vai parar na Internet. Os comentários vão desde piadas ofensivas até desejos de que da próxima vez, a pedrada seja mais dolorosa. Outros pedem para que as pessoas inclusive copiem o ato em outros músicos populares.

Um restaurante é acusado de expulsar um casal de homossexuais por estar se beijando em um “ambiente familiar”.
Diversas pessoas pela Internet combinam um boicote contra o restaurante. Alguns comentários mais exaltados fazem menção a um ataque à bomba contra o estabelecimento.

Um jogador de futebol supostamente homossexual é anunciado como interesse de um grande time.
Os torcedores se unem contra a contratação, ameaçando o clube e o próprio jogador. Em alguns casos, até fisicamente.

Manifestantes tentam agredir o prefeito de uma cidade e furam os pneus do seu carro. Por conta disso, acontece um confronto com a PM.
Uma foto mostrando os policiais prendendo os manifestantes é postada. Todos acusam a PM de truculência e reafirmam a vergonha que é viver em um pais como o Brasil, onde os policiais agridem as pessoas sem motivo.

Durante seu show, uma cantora vê policiais abordarem um grupo que fumava maconha. Ela grita palavras de ordem aos policiais, sem se importar com o risco de incitar a violência em seu público, que a aplaude. Grita xingamentos contra os policiais, que inicialmente apenas estão cumprindo seu dever, e os desafia a prendê-la.
No dia seguinte, o vídeo da cantora cai na rede. Ele não mostra a ação da polícia, apenas a cantora. Ainda assim, o público fica do lado dela, critica a ação policial e a clama como uma heroína.

Na página de uma garota no Facebook, são postadas fotos de uma aparente festa sexual, uma “suruba”.
Mesmo com a própria garota afirmando que seu perfil pessoal fora invadido, milhares de pessoas compartilharam o perfil e o álbum de fotos em questão, chamando a garota de vagabunda, de sem-vergonha e de outros nomes de baixo calão.


Todos os casos acima são reais, e ocorreram no intervalo de pouco mais que um mês.
Todos se resumem aos FATOS, não a opiniões pessoais ou teorias e suposições.
Todos se resumem exclusivamente à imparcialidade.

Uma imparcialidade cada vez mais rara.

Vamos deixar uma coisa clara:
Todo mundo tem o direito às suas próprias opiniões.
Isso significa que você e eu temos o direito de criticar o que quisermos, dentro dos devidos parâmetros sociais.
Mas para isso, existe algo essencial para a formação dessa opinião própria..

É necessário conhecer todos os fatos!
Todos! Os! Fatos!

Se eu quero expor meus argumentos, eu preciso conhecer todos os lados de um acontecimento.
Eu não posso afirmar que houve um crime como o estupro vendo alguns “movimentos suspeitos” debaixo de um edredom. Posso, isso sim, exigir uma investigação sobre o caso, mas não posso apontar o dedo e acusá-lo de algo tão grave.
Não posso também divulgar publicamente dados pessoais de uma pessoa ou ameaçá-la de morte, independente do que ela tenha feito.
Do mesmo jeito, não posso desejar a morte de um músico por não gostar da música que ele faz. Não posso agredir alguém por termos gostos diferentes.
Eu não posso ameaçar um estabelecimento por conta de uma acusação, especialmente acusações que não são comprovadas. Mal-entendidos, acredite ou não, acontecem.
Assim como não posso ameaçar ou agir contra um atleta por conta da sua vida pessoal.
Ou julgar toda uma corporação por conta de uma imagem ou relatos na Internet.
Nem julgar essa mesma corporação tomando como base o ponto de vista de uma cantora. Seja você contra ou a favor das drogas, a maconha ainda é uma droga ilícita.
E se algo foi postado numa rede social, pode ter sido postado por qualquer um. Não é porque o perfil é seu que ninguém mais pode conseguir acesso.

Que fique bem claro que eu não estou defendendo ninguém.
Não sei se ele estuprou, se a policia bateu, se a mulher matou, se o restaurante foi homofóbico ou se a garota publicou o que não devia.
Mas suas opiniões e gostos pessoais não podem interferir no seu bom-senso.

E eu não estou dizendo que todos os julgados são inocentes, mas todos são sim inocentes até que se prove a culpa.
E para se provar a culpa, deve haver provas. Fatos.
Não “compartilhamentos” na Internet. Não é porque você leu algo no Twitter, viu uma imagem no Facebook ou assistiu a um vídeo do You Tube que aquilo é real, você deve ir atrás dos fatos antes de assumir um lado.


Você deve ir atrás dos fatos antes de assumir um lado.


Me assusta essa justiça de Internet.
As pessoas querem punir sem um julgamento.
As redes sociais podem destruir uma vida, e ninguém parece levar isso a sério.
O que cai na rede consegue um alcance inimaginável, e todos parecem levar isso na brincadeira. Não é brincadeira, estamos tratando da vida real por aqui.
É a vida real, como a minha e a sua.
Real como você e eu.

A ignorância só se espalha.
Essa ignorância alimentada pela preguiça em ir atrás dos fatos, pela falta de preocupação em se conhecer a verdade, por esse excesso de confiança em tudo o que se escuta, vê ou lê.
Todos parecem ter a necessidade de escolher um lado.
De assumir uma posição.
Custe o que custar.

Polêmicas sempre vão acontecer.
E quando acontecerem, elas estarão nas redes sociais, não há como fugir.
Nós temos ao alcance dos nossos dedos uma das maiores armas sociais já criadas desde a invenção da imprensa.
E sabendo usar essa arma, podemos mudar o mundo com um clique no mouse, com um compartilhamento no Facebook, com um comentário no Twitter, com um texto no blog.
O conhecimento pode nos levar até onde nunca nem imaginamos chegar.

Agora nós só temos que escolher,
Se queremos mudar o mundo para melhor.
Ou para pior.

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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

RIP

Por Brancatelli


Algo morreu.

Sei porque eu sinto nos meus ossos, na minha pele.
Eu sinto na minha cabeça, cansada.
Sinto na minha alma.

Sem causa e sem consequência.
Sem drama e sem barulho.
Sem nota no jornal.
Sem lágrimas.

Algo morreu.
E ainda que eu tente, é impossível ignorar.

Deitada em uma poça de sangue e tristeza, jaz minha infância.

Morreu em idade avançada, muito mais tempo do que qualquer infância deveria sobreviver.
Morreu esquecida, abandonada, empoeirada, castigada pelo desdém.
Pode ter morrido faz tempo, mas eu só percebo agora.

Mas sei que, há pouco, ela ainda estava aqui.
Agora não esta mais.

Sei que esteve aqui, sim, pois ela me ensinou tudo o que eu precisava saber.
(não tudo o que eu SEI, mas tudo o que eu PRECISAVA saber)
Sobre formigas, sobre cachorros, sobre pessoas.
Sobre o mundo, sobre o universo.
Sobre histórias.

Sobre tudo aquilo que deveria ser esquecido, mas não foi.
Que deveria dar lugar a outras coisas, mas não deu.
Deveria morrer, mas não morreu.

Mas ela morreu.

Foi morta pelo tempo.
Foi morta pela idade.
Foi morta pela razão.

Foi morta pelo desleixo, pela distância, pelo querer e pelo não-querer.
Foi morta pela vontade, pela necessidade, pela adversidade
Foi morta pelo desprendimento, morta pela pretensão.
Foi morta pelo acaso, e pelo descaso.
Foi morta pelo ser e pelo não ser.

Foi morta por todos vocês.
Foi morta por mim.

Eu matei minha infância.

Não matei com uma pedrada.
Matei pelo esquecimento.
Esta sim a forma mais cruel.

Mas sei que, ainda que morta, ela não me abandona.
Porque tudo o que ela me ensinou esta incrustado em mim.
Marcado dolorosamente a ferro quente, como tatuagem, onde ninguém pode roubar, ninguém pode alcançar.

Ninguém além de mim.

E é para la que eu vou.
Sempre que eu pensar em formigas, em cachorros, em pessoas.
Sempre que eu pensar no mundo, no universo.

Sempre que eu pensar em histórias.

É pra la que eu vou..

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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sobre não ter nada a dizer

Por Brancatelli


Ok, eu confesso..
Eu não consigo pensar em nenhum tema pra este texto.

Não tenho nenhuma introdução bacana que desperte minimamente a sua curiosidade.
Absolutamente nada que possa fazer com que você se interesse o bastante para adiar qualquer outro afazer, ou que te convença de que passar alguns minutos lendo estas palavras é melhor que passar esses mesmos minutos lendo alguma outra coisa. Algo que te faça se perguntar "hmm onde será que ele quer chegar com tudo isso?". E afinal, onde será?
Eu devia escrever alguma coisa inteligente por aqui, mas não consigo.
Queria conseguir atrair sua atenção, mas não sei como.


Também não sei exatamente sobre o que escrever.
Nenhum assunto bom o bastante pra encher essas linhas, nenhuma pauta que consiga render um post interessante, nada que realmente valha a pena.
Rock in Rio? Steve Jobs? Fotos de alguma celebridade pelada? Um filme bom que eu vi no cinema? Ou um filme ruim? Hm, não, nada que me empolgue.
Não existe nada neste exato momento que eu queira falar sobre.


Aqui eu deveria desenvolver o assunto, mostrar o porque de estar escrevendo sobre ele. Mas é impossível.
Como desenvolver a falta de assunto? Como mostrar a você que eu realmente não tenho nada a dizer, nada digno de nota, nada que va mudar a sua vida. Ou a minha própria vida. Nada criativo, nada sequer promissor. Porque é exatamente isso que eu tenho em mãos. Nada.
E pior, este deveria ser o momento mais longo do texto. Aquele em que eu deveria enrolar um pouco, fixar bem tudo o que eu disse, antes de partir para as linhas finais deste post. Mas de novo, se ja é difícil desenvolver a falta de assunto, como esticar ainda mais este assunto (ou a falta dele)??

Talvez criando parágrafos inúteis.

Que só sirvam para encher mais este espaço.

Mas que pareçam importantes, afinal, são parágrafos, independentes do resto do texto. Eles devem significar alguma coisa, o segredo para entender este texto.

Uhhhh, que importantes hã.

O quem sabe eu precise apelar para frases poéticas, com o intuito de preencher o espaço vazio, espaço este que jamais, jamais será preenchido. Espaço que, sob pena de estar sendo piegas demais, ja preenche o vazio do meu próprio ser, ainda que defasado pela ausência de.. de que?
De que?
Que?
?


Neste ponto, eu deveria criar a ponte para o final. Concluir todas as idéias acima, abrindo caminho para a conclusão de tudo o que foi dito.
E de repente até incluindo um pequeno "twist".
Porque talvez o problema maior não seja a falta de assunto, e sim a completa falta de estímulo.
Estímulo para escrever, estímulo para pensar, estímulo para viver.
Talvez o problema não seja a falta de assunto, mas sim a falta de coragem de olhar um espaço em branco. O medo de se perceber completamente sem idéias. O medo de, de repente, perceber que ninguém está lendo essas palavras.
O medo de falhar.


O final pode vir rápido, mas hoje deve demorar um pouco mais.
Criar as frases de efeito perfeitas, aquelas que vão fazer este texto ficar na sua cabeça, as que vão te fazer pensar, mais que qualquer outra linha aí em cima.
Normalmente elas vêm no ritmo do texto, prontas para serem usadas. De qualquer outro jeito, podem soar forçadas.
Mas hoje não. Afinal, como criar um ritmo da falta de assunto, da falta de estímulo, da falta de coragem?

Mas ainda assim, preciso tentar.
Pois é aí que está a coragem.
A coragem em falhar.

Ainda que eu não tenha assunto, ainda que eu não tenha motivos, coragem, estímulo, ritmo, ainda que eu não tenha leitores, linhas, parágrafos, poesia, começo, meio e fim.

Ainda que eu não tenha nada a dizer.


Eu preciso tentar.



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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Última Volta


Por Brancatelli

Alguns finais são mais tristes que outros.

Conheci o Ecos Falsos la em 2006, num programa da MTV chamado Banda Antes, que mostrava bandas ainda relativamente desconhecidas, apresentado pelo Rafael Losso. Lembro de achar os integrantes divertidos, as músicas originais. Existia uma química diferente dentro daquela banda, um bom-humor e um entusiasmo sincero misturado a uma despretensão quase casual. Muito diferente de tudo o que eu ouvia naquela época. Procurei quando ia ser a reprise daquele Banda Antes pra poder rever depois (em tempos pré-YouTube, esse era o jeito). E meio que me esqueci daquilo tudo..
Daí, ainda em 2006, lembro do show no Outs. Lembro de ouvir pela primeira vez aquela frase que mudaria tudo: “Eu só sou sentimental quando eu me fodo!”
Me peguei berrando o refrão de uma música que eu escutava pela primeira vez como se já fosse a minha música favorita.
E daí eu já estava conquistado.

Daí veio o primeiro CD, o Descartável Longa Vida, vários shows, mais uma porção de shows, a mudança na formação, o show no Jô Soares, o segundo CD, o Quase, e daí..
O fim.

Sábado passado aconteceu o último show oficial do Ecos Falsos.
Na platéia os fãs sempre fiéis à banda, no palco aqueles caras que eu não só tinha acompanhado de perto pelos últimos 5 anos, mas que tinham criado uma amizade real com o público.
Isso por si só já tornava tudo tão triste.
Mas não só isso.

O Ecos Falsos foi importante pra mim no sentido de me incentivar a escrever coisas novas, com um outro tom, não só em músicas mas em qualquer texto que eu escrevesse.
Me mostraram que ainda existia criatividade e originalidade num cenário habitado pelo mais do mesmo.
Descartável Longa Vida é, na minha opinião, um dos melhores discos nacionais lançados. Não, não só um dos meus favoritos, mas genuinamente um dos melhores.
E mesmo com aclamação da crítica, apoio de artistas como Tom Zé e Fernanda Takai, mesmo com os fãs fiéis e criando barulho na Internet, mesmo tendo tudo para o reconhecimento e para o sucesso..

O Ecos Falsos é a prova viva de que competência, qualidade e esforço não bastam.

Não quero acreditar que o público procura pela mediocridade.
Talvez a sorte seja fator essencial. Talvez fosse necessário abandonar a cara underground a qual a banda nunca abandonou, tornar-se mais “adequada” a um certo padrão. Talvez..

Talvez simplesmente não haja um motivo.
Como a própria banda define, a distância entre o "quase" e o "nada" é quase nada.

Alguns finais são mais tristes que outros.
Quando uma banda boa acaba no auge, tendo tido sua cota de sucesso, conseguido atingir o grande público, não é motivo de tristeza.
Mas quando uma banda boa acaba sem conseguir a consagração merecida, sem nem ao menos ter tido a chance de fazer sucesso.. bom, isso é simplesmente injusto.

Era daí que vinha a tristeza daquele último show.
Ver como as letras representavam aquele momento, ver a melancolia e o cansaço nos olhos de cada um deles. Ver a tristeza enorme da banda durante a última música, Reveillon, contrastando com a alegria e o entusiasmo daquele show 5 anos atrás.
Perceber que nenhum deles queria que fosse esse o fim.

Tudo o que eu posso fazer é agradecer ao Ecos Falsos por esse tempo que ele fez parte da minha vida.
Dizer que eu acho incrivelmente heróico eles terem mantido a banda por tanto tempo, mesmo quando nada parecia estar dando certo, mesmo com tudo que desanimaria qualquer pessoa normal.
E principalmente pedir pra que eles nunca duvidem que fizeram sim a diferença pra tantas pessoas diferentes.
Tanto com música quanto com atitude.

Porque Ecos Falsos é foda demais!

Agora chega de ser tão piegas.
Afinal, de drama no mundo já chega.
E sem esquecer, claro, louvado seja o Bom Amigo Inibié!

Sempre..

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domingo, 21 de agosto de 2011

Sobre o futuro.

Thiago Brancatelli é um velho triste de 60 anos, que mora sozinho em um minúsculo apartamento aos pedaços em um endereço que ninguém nunca se importou em anotar.
Sua maior alegria é gritar com as crianças que brincam na rua e com os pássaros que teimam em lhe tirar de seu sono a cada manhã.
Thiago Brancatelli odeia risada, bom-humor lhe embrulha o estômago e sorrisos fazem doer um ponto específico bem entre seus olhos.

Um de seus raros prazeres é sentar em uma mureta da Av. Paulista nos dias cinzentos e chuviscosos, bebendo um copo de café preto e sem gosto do Starbucks e assistindo seu pombo de estimação saltar pela calçada. Seu pombo de estimação, seu único e melhor amigo. Thiago Brancatelli o leva para passear a cada 3 semanas e meia, sempre usando uma coleira e munido de um chicote.
Sente falta dos seus amigos, mas sabe que estão melhor sem ele.

Thiago Brancatelli nunca teve emprego ou namorada.
Nunca teve futuro, odeia o presente e se esforça pra esquecer o passado.

Adora cortar sua barba com lâminas cegas e água fria, adora o som que um inseto faz ao ser esmagado com o dedão contra a parede do banheiro, adora comer comida congelada sem esquentar. Se diverte demais colocando números aleatórios nos Sudokus do jornal do dia anterior e criando palavras sem sentido nas palavras-cruzadas.
Thiago Bracatelli ri sozinho forçando e riscando a ponta do garfo no prato de comida quando janta sentado no chão de sua cozinha.
Gosta de passar horas olhando seu reflexo no espelho à procura de uma ruga nova, acha hilário quando finge conversar com sua própria dentadura e quando assiste ao canal do tempo.

Passa o tempo arrastando barulhentamente seus móveis sem motivo nenhum durante suas madrugadas insones. Quando cansado o bastante, se encolhe em posição fetal no centro do seu quarto, fecha os olhos e murmura alguma canção triste do seu tempo, até pegar no sono.
E nos seus sonhos, Thiago Brancatelli não é Thiago Brancatelli.
Nunca.
E nunca cometeu os erros que cometeu, e não carrega os arrependimentos que carrega. Não sendo Thiago Brancatelli, Thiago Brancatelli torna-se alguém.
Nos seus sonhos, Thiago Brancatelli nunca sonha em não ser Thiago Brancatelli.
Mas os pássaros o trazem de volta ao seu próprio corpo a cada manhã.
Sempre..

E ao passo que o fim se aproxima, mais Thiago Brancatelli entende que morrerá como sempre viveu, sendo quem sempre foi.
E, quase que comicamente, isso coloca um sorriso em seu rosto.


Thiago Brancatelli é um garoto de 25 anos.
Com os melhores amigos, a melhor família que uma pessoa pode ter.

E com todo um futuro pela frente..

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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Chico


Por Brancatelli

Expectativas altas, boatos, opiniões intelectualóides, críticas abalizadas, comparações com o passado, notícias em todos os jornais, revistas e sites..

Um novo lançamento musical do Chico Buarque nunca é apenas um lançamento.
É um verdadeiro evento nacional.

E agora, 5 anos após o lançamento do álbum Carioca, ocupados pela criação do seu quarto romance - o festejado Leite Derramado - e pelo completo desprendimento musical, o compositor lança seu novo e breve disco, o primeiro de sua carreira a se chamar apenas Chico.
Com toda a pompa descrita la em cima, como não podia deixar de ser.

O disco é minimalista em seu nome, músicas, instrumentação e duração (pouco mais de 30 minutos).
Mas conta com canções que podem perfeitamente ser incluídas entre as melhores do músico. Um verdadeiro apanhado de todas suas fases, desde os primeiros sambas até as músicas mais difíceis dos últimos trabalhos.
Um passeio por toda sua carreira.

Chico parece ter alguns temas centrais.
Primeiro é óbvia a influência do seu romance com a cantora Thais Gulin, 36 anos mais nova. A relação entre um homem mais velho e uma garota mais nova é o foco de duas das melhores músicas do disco, o blues "Essa Pequena" e a faixa "Tipo um Baião", que é, tipo assim, um baião. O tema é percebido em "Se Eu Soubesse", com participação da própria Thais Gulin. E o peso da idade também está presente na bem-humorada e nostálgica "Barafunda".
Outro tema, como apontado pelo próprio Chico no making of do álbum (clica la, vale muito a pena), é a própria música. "Rubato" é uma brincadeira sobre uma composição roubada por outros músicos, que colocam a letra que mais lhes convém. "Nina" é uma valsa russa falando da própria valsa russa, assim como a ja citada "Tipo um Baião", com um dos mais lindos versos criados pelo Chico: "Meu coração / Que você sem pensar / Ora brinca de inflar / Ora esmaga / Igual que nem / Fole de acordeão / Tipo assim num baião / Do Gonzaga".
Restam ainda a melancólica "Querido Diário", a triste sequência da música de Tom Jobim "Sem Você nº2", a literária e trágica "Sinhá" e o divertidíssimo samba "Sou Eu", gafieira com a participação de Wilson das Neves.

Vale celebrar a parte instrumental de Chico.
No melhor da filosofia "menos é mais", o que é encontrado são instrumentos muito bem pensados e colocados na música. Impressiona esse cuidado em faixas como "Essa Pequena", por exemplo. Grande parte do mérito deste lançamento se deve a isso.

No final de "Sinhá", última faixa do álbum, Chico canta algo que se parece com seu próprio epitáfio musical:

E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor


Com Chico, o compositor nos apresenta sua mais acessível (e talvez sua melhor) coleção de músicas em muito tempo, mostrando que ainda tem muito o que mostrar, calando a boca dos que o davam como acabado e mostrando por que é sim nosso maior compositor.
Esperamos que o conto deste cantor, com voz do pelourinho e ares de senhor, ainda esteja longe, muito longe de acabar.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Maus


Por Brancatelli.

"Toda palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada."

A frase, do escritor irlandês Samuel Beckett, é citada em uma conversa entre o desenhista Art Spiegelman e seu psiquiatra, cena real presente na sua HQ biográfica Maus ("ratos", em alemão), publicada em 1991.

A obra, inicialmente criada para contar a história de como seu pai, Vladek Spiegelman, sobreviveu aos horrores da Segunda Guerra e ao campo de Auschwitz, acabou se transformando num relato do difícil relacionamento entre pai e filho.
Mais que isso, em um acerto de contas do autor consigo mesmo e com seu passado conturbado.

Mesmo retratando os judeus como ratos e os alemães como gatos, Spiegelman humaniza seus personagens de uma maneira extremamente sóbria. Do soldado nazista ao povo polonês (retratado como porcos), dos informantes traidores até seu próprio pai, o estereótipo do judeu mesquinho, pão-duro e racista.
Não existem heróis perfeitos, o que existe são seres-humanos, tão imperfeitos e cheios de falhas que é impossível não reconhecermos a nós mesmos.

Em Maus não existe a idealização.
Apenas a realidade.

Alternando a história de seu pai à sua própria, Art tenta justificar a difícil figura do pai, moldada pela Guerra, pela perseguição, pelas perdas e pelo suicídio de sua esposa.
Desse modo, Art acaba tentando justificar suas próprias ações. Em certo momento, o autor percebe que, no fundo, ele sempre competia com a lembrança de seu irmão, morto na Guerra antes mesmo de seu nascimento, e que tudo o que ele carregava disso era culpa. Culpa por não ter passado pelo que seus pais passaram, culpa por ter sobrevivido ao seu irmão, culpa por não conseguir entender o sofrimento de se estar preso em um campo de concentração, de passar fome e estar às portas da morte, culpa por se sentir explorando a tragédia do Holocausto em sua obra, culpa pelo seu próprio sucesso.
Enquanto relata a história de seu pai, Art liberta todos seus traumas psicológicos.

"Toda palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada."

Tentar definir o horror do Holocausto nazista é uma tarefa impossível, mesmo para quem sentiu suas marcas na própria pele. Pior ainda seria tentar entendê-lo.
Na conversa onde essa frase é citada, Art é questionado por seu psiquiatra do porque de existir tantas obras sobre o Holocausto, se ainda assim as pessoas não mudaram.
Maus não tenta explicar o que aconteceu, e tão pouco justificar. A obra apenas mostra, em uma leitura pesada e perturbadora, as profundas cicatrizes que tudo aquilo deixou em seus sobreviventes, seja nos diretos quanto nos indiretos.
Não importa os culpados, apenas as vítimas.

A ilimitada maldade humana não é algo compreensível.
E qualquer tentativa de representá-la acaba sendo apenas uma mácula desnecessária no silêncio, que por si só já diz muito mais.

Mas conseguir transformá-la em arte?
Isso sim é admirável.

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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Suck It And See


Por Brancatelli

Tudo começou com a incapacidade de 4 adolescentes de Sheffield em colocar suas próprias músicas na Internet.

O barulho criado em torno do Arctic Monkeys já era alto em meados de 2004 quando, buscando preencher o vazio deixado pelo fim do Libertines, a Inglaterra voltou seus olhos à procura do futuro do rock britânico.
O "futuro" em questão, sem saber como colocar suas próprias músicas na Internet, contou com a ajuda dos fãs, a partir de demos distribuídas durante algumas apresentações. Não demorou para que o perfil criado no MySpace (sem o conhecimento da banda) começasse a levar cada vez mais gente aos shows e, claro, atraísse a atenção da crítica musical especializada.

O resto é história..


Agora, 5 anos após o lançamento do álbum de estréia - Whatever People Say I Am, That's What I'm Not - o Arctic Monkeys lança seu quarto disco, chamado sutilmente Suck It and See (uma expressão comum na Inglaterra, que significa algo como "dê uma chance").
E enquanto eu engolia em seco esperando (ou seria "temendo") uma continuação do álbum anterior, o Humbug, quem imaginaria que a banda iria por um caminho completamente diferente?!

Quem esperaria?
Bom, eu já devia esperar.
Acostumados em surpreender a cada música lançada, Alex Turner e companhia deixaram de lado os acordes sombrios e o clima arenoso do Humbug e criaram faixas cheias de "shalalalas" e "iéiéiés".

Não me levem a mal, o Humbug é um ótimo CD.
Mas não era, nem de longe, o CD que eu esperava do Arctic Monkeys.
Com forte influência do co-produtor Josh Homme e do clima desértico da Califórnia, onde foi gravado, o álbum tinha um clima carregado demais, sombrio demais, pesado, escuro.
Sempre que eu falava sobre ele, os elogios vinham acompanhados de um "mas".
Ótimo álbum, com ótimas músicas, mas..


Suck It and See é o CD que eu esperava do Arctic Monkeys.


Mais leve, mais pop, mais "acessível".
As letras de Turner marcam, em certos momentos, um retorno ao seu "estilo observador" dos dois primeiros álbuns, só que mais refinado.
Os riffs e as guitarras rápidas deram lugar a algo mais bem pensado, por assim dizer. Se a banda perdeu parte da energia que vinha a partir disso, ela acabou ganhando em harmonia. Cada instrumento parece ter um lugar exato em cada faixa.
Vemos então uma coleção de músicas que vai do rock à balada. Da experiência rítmica esquizofrênica à faixa final de apenas dois acordes. Do romance à ironia. De Sundance Kid a modelos topless.


Em seu quarto álbum, o Arctic Monkeys criou o meio termo perfeito entre os dois primeiros e o terceiro trabalho.
Se tivesse sido lançado entre eles, talvez tivesse tornado o Humbug um tanto mais facilmente "digestível".
Do jeito que aconteceu, a banda se aproxima de uma década de existência confirmando todas as apostas feitas quando suas músicas não passavam de uma demo distribuída nos shows.

Talvez até superando-as.

A expressão britânica "suck it and see" é como um convite. Arrisque. Experimente algo novo. Faça algo novo.
Alex Turner não fala mais sobre garotas em pistas de dança e questões adolescentes.
Suas composições cresceram e amadureceram tanto quanto os 4 garotos de Sheffield, que há pouco tempo não sabiam nem colocar suas próprias músicas na Internet.

Ao que parece, ele ainda tem muito o que falar.

Dê uma chance.

Arrisque.

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Toque Dela


Por Brancatelli

Sim, o novo álbum do Marcelo Camelo, Toque Dela, foi lançado há mais de dois meses, e só agora ele aparece por aqui no blog.
Mas confesso, esse foi o tempo que eu precisei para começar a simpatizar com ele.

A primeira música lançada, "Ôô", já tinha se mostrado meio chatinha. Não era necessariamente ruim, mas simplesmente não dava vontade de ouvir de novo, falha fatal em qualquer música. Foi com essa cabeça que eu escutei o CD, no conforto do meu carro, e precisei parar na metade sob risco de dormir ao volante. Saí falando para quem quisesse ouvir que o CD era chatíssimo, um verdadeiro porre.
Dei outra chance alguns dias depois. Algumas músicas já começaram a soar melhor, e dessa vez fui até o final. Foi suportável, mas nada que me impulsionasse a ouvir de novo. E ele voltou ao meu porta-luvas.
A terceira chance foi bem melhor. Percebi algumas músicas bem boas, que inclusive dava vontade de ouvir de novo, e de novo, e de novo. Conseguia encontrar momentos bacanas inclusive nas músicas mais fracas.

E pronto.
Pouco a pouco, fui conquistado.

Não duvido também que essa tenha sido a intenção do músico.
Um álbum que não pede por uma ou duas audições, mas exige um esforço por parte do ouvinte, como já se acostumou qualquer um dos seus fãs, desde a época do Los Hermanos.
Você precisa se afeiçoar às músicas para entende-las e, assim, aceita-las.

Sorte que a banda Hurtmold repete aqui a parceria do primeiro CD, conseguindo elevar mesmo a composição mais simples do Camelo, fazendo cada música ao menos valer a pena pelo instrumental.
Ela é simplesmente perfeita, em todas as 10 faixas.

O mesmo não pode ser dito das 10 faixas em si.
"A Noite" e "Ôô", que abrem o disco, são bem descartáveis. "Pretinha" é daquelas que você precisa aguentar os constrangedores versos iniciais para chegar na parte boa.

Apesar disso, as outras se provam bem bacanas!
"Tudo Que Você Quiser" começa arrastada, e precisa ser ouvida com atenção para poder ser apreciada. "Vermelho" consegue empolgar, e "Meu Amor É Teu" foi uma ótima escolha para fechar o disco, apesar de repetitiva demais. Até "Despedida" consegue aqui uma versão muito melhor que a gravada pela cantora Maria Rita. E tem "Pra Te Acalmar", que poderia estar calmamente no quarto - e último - álbum do Los Hermanos (consigo inclusive imaginar a voz do Rodrigo Amarante cantando a música, se não com os Hermanos, com seu outro projeto, a Orquestra Imperial)).
E Toque Dela apresenta pelo menos duas músicas fantásticas: a deliciosa "Acostumar" e a épica "Três Dias", parceria com André Dahmer, criador das tiras e do site Malvados.

Com um material melhor e principalmente menos cansativo que seu álbum de estréia, Sou, Marcelo Camelo aparece aqui mais solto, mais à vontade, menos melancólico, coisa que inclusive se reflete em sua voz, melhor que nunca.
Deixando de lado as letras estruturadas dos seus velhos tempos, ele parte para a escrita intuitiva, favorecendo os sons das palavras acima do que significam, acertando em alguns momentos e errando em outros.. mas arriscando.
Se o CD anterior tinha o trunfo de algumas músicas já conhecidas, como "Liberdade" e "Santa Chuva", este faz jus ao talento criativo e melódico do compositor.
Sem contar os lindos arranjos de cada música, que por si só já garantem o disco.

Não é o tipo de trabalho que vai mudar a opinião dos que o detestam.
Mas certamente vai manter sua legião de fãs.
Da qual eu, orgulhosamente, faço parte.

Ainda que com algum esforço.

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terça-feira, 3 de maio de 2011

Jeneci no Ibirapuera


Por Brancatelli

Confesso que eu estava com medo do show do Marcelo Jeneci.

Não por duvidar do talento musical dele, nisso ele já tinha se provado com o seu CD, Feito pra Acabar (sobre o qual você pode ler clicando AQUI!)
Mas à medida que o público ia chegando ao show, martelava na minha cabeça que o músico talvez ainda não estivesse preparado para comandar todo aquele monte de gente que lotava as cadeiras do Auditório do Ibirapuera.
Afinal de contas, após fazer papel de músico de apoio por tanto tempo, o "papel principal" ainda era algo novo para o Jeneci, assim como para a cantora Laura Lavieri, que o acompanha em quase todas as músicas do disco.
Será que eles teriam tato para cativar o exigente público paulistano?

O medo durou bem pouco.
Multi-instrumentista nato, alternando guitarra, piano e sanfona, Marcelo Jeneci mostrou que de iniciante ele não tem nada.

Saído de Guaianases direto para a banda de Chico César em 2000, portando uma sanfona dada de presente pelo mestre Dominguinhos, a qual aprendeu a tocar sozinho, Jeneci moldou seu nome compondo com gente como Vanessa da Mata (que inclusive participou de duas músicas do show no Auditório) e Arnaldo Antunes, tendo suas canções em destaque nas novelas da Globo, acumulando respeito e admiração dentro do novo cenário da MPB e se firmando como grande revelação da música nacional.

Tudo isso deu a Jeneci a experiência necessária para tocar com segurança todo seu álbum de estréia, além de composições novas, parcerias que não estão no CD e até uma cover do Roberto Carlos ("Do Outro Lado da Cidade", que ficou ainda melhor que a original do Rei).
Não contente em tocar com perfeição cada uma das músicas que a platéia queria ouvir, o músico ainda se divertia fazendo isso, soltando piadas entre uma música e outra, conversando com a platéia e visivelmente orgulhoso e emocionado em ver o reconhecimento dentro da sua própria cidade.
Sem esquecer a fantástica banda de apoio reunida no palco, que por si só já merecia um post extra por aqui..


Marcelo Jeneci tem o talento se conseguir se comunicar com diversos tipos de público, do mais popular ao mais, digamos assim, "intelectual".
Suas músicas não são simples trabalhos, é fácil encontrar a emoção do artista nelas.. e isso fica claro quando as ouvimos ao vivo, sentindo aquilo que ele sente, percebendo o que cada uma delas significa para seu criador.

E com a humildade de quem ainda está dando seus primeiros passos, ele prova que tem o que é necessário para marcar seu nome para sempre na música popular brasileira.

Com músicas que, com toda certeza, não foram "feitas para acabar".

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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os discos que ouvi, a vida que levei


Por Brancatelli

Sim, já começamos aqui no Two Cold Fingers as mudanças comentadas no meu último post.
Mas calhou de eu ter alguma coisa pra escrever bem numa quinta-feira.
Acho que é isso que chamam de ironia, hein..
Independente do que eu faça, meus posts sempre serão "de quinta".

Bom, isso aqui é o que eu tenho ouvido:


Pulp
Different Class

O "britpop", espécie de movimento musical britânico dos anos 90, tinha sua santa trindade.
Tinha o Oasis, com as infinitas brigas dos irmãos Gallagher e a fixação em ser os Beatles.. tinha o Blur, com suas ousadias e pretensões musicais.. e tinha o Pulp.
Confesso que só tinha escutado umas poucas músicas da banda liderada pelo (gênio) Jarvis Cocker, mas finalmente tomei vergonha nessa minha cara feia e escutei sua obra máxima, o álbum de 1995 "Different Class".

E fui tomado por uma sensação de "onde você esteve toda minha vida?"!

Primeiro vale a pena dizer que o termo "britpop" é simples demais para qualificar o som que se fazia no Reino Unido. Basta escutar qualquer banda inclusa nesse grupo (ainda que nunca por vontade própria delas) para perceber o quanto uma é diferente da outra.
E é isso que define esse álbum: algo diferente de qualquer outra coisa, e por isso tão indefinível. E se o próprio nome "different class" já não explicava isso, a frase no verso do álbum acabava com qualquer dúvida:

"Please understand. We don't want no trouble, we just want the right to be different. That's all."

Ainda não conhece?
Toma vergonha nessa cara (feia ou não) e vai atrás!

Extremamente obrigatório.

Melhor música: Common People (ok, a versão do William Shatner consegue ser ainda melhor.. mas é a música ideal pra conhecer esse disco!)


Adele
19 e 21

O primeiro álbum dela, "19", foi lançado em 2008 e já nasceu aclamado pela crítica. O segundo e mais atual, "21", foi lançado agora em 2011 e já bateu uma pá de recordes de vendas.
Então o que mais eu podia fazer a não ser escutar essa garota pra ver se é tudo isso mesmo?

Sendo uma mistura de Amy Winehouse e Duffy, mas conseguindo ainda assim manter sua própria identidade, Adele talvez falhe na tarefa de criar músicas mais fortes e marcantes.. mas até a mais medíocre das músicas torna-se grandiosa com sua interpretação. É aí que está a força da artista.
E que força! Não tão suave quanto uma Duffy nem tão forte quanto uma Amy Winehouse, Adele consegue um equilíbrio certeiro para ser única, conseguindo tornar sua voz suave ou poderosa dependendo do que a música peça.
Algo até arrepiante.

Apesar de se mostrar bem à vontade no seu CD de estréia, ele se solta ainda mais no seguinte, mostrando talvez uma evolução para algo mais pop, sem perder a raíz no soul.
Entre tantas Britneys, Gagas e genéricos, que se calcam em polêmicas e na sensualização da própria imagem, é um alívio ver uma mudança dessas no gosto popular.

Melhor música: Chasing Pavements (19) e Someone Like You (21)


The Vaccines
What Did You Expect From The Vaccines?

Perdi as contas de quantas vezes li Internet afora que o The Vaccines era o "novo Strokes".
Agora, já tendo ouvido o CD de estréia deles, preciso fazer a seguinte pergunta:

Quem afirmou isso ouviu QUALQUER música do Vaccines???

Musicalmente eles não têm nada a ver!
Fisicamente eles também não têm nada a ver!
Talvez eles usem tênis parecidos, ou compartilhem o mesmo número de dedos nas mãos, mas fora isso simplesmente não tem nada a ver!

Pronto.
Desabafei.

O álbum é bacana.
Não é a salvação do rock, não trás nada de novo, é inclusive cansativo e pouco inspirado em alguns momentos, mas apresenta antes de qualquer coisa uma banda promissora.

Engraçado perceber como algumas músicas lembram um Ramones sem a pegada punk. O segundo single do álbum, "Post Break-Up Sex", por exemplo, remete de imediato à clássica "The KKK Took My Baby Away".

Mas Brancatrolhas, você ta me dizendo que Vaccines tem mais a ver com Ramones que com Strokes?

Sim. o/

Independente disso, eles estarão aqui no Brasil no Festival Planeta Terra, juntinhos de Julian Casablancas e companhia.
Então escutar esse CD acaba sendo uma necessidade, vai..

Melhor música: If You Wanna (e é sério, é boa MESMO!!)


Engraçado, eu meio que falei do passado, do presente e do futuro da música.
Meio assustador perceber isso agora, não?!

Vamos tentar não fazer mais isso..

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Tempos de Mudança..

Pessoal, a falta de tempo/assunto nos últimos dias acabou deixando o blog às moscas na semana passada.

Vendo isso, a equipe do Two Cold Fingers (que se resume à Renatinha e a mim.. mas soa muito mais bacana quando chamamos de "equipe") está pensando em algumas mudanças pro blog, a começar pela frequência de posts.
Se atualmente tentamos manter uma ordem pré-estabelecida de que eu posto às quintas e a Renatinha posta às segundas, queremos anarquizar um pouco e acabar com isso. Cada um postando o que quiser quando quiser e se quiser. Daí quem sabe a gente evita textos forçados e acaba um pouco com a encheção de linguiça que temos aqui de vez em quando.

Como o blog não tem nenhuma pretensão financeira ou coisa do tipo, ele é apenas um prazer para nós.. e acho que essa mudança é necessária para que ele continue sendo exatamente isso.

Mas claro que queremos, se possível, ouvir a opinião de quem acompanha o blog sobre essa mudança em especial.

O que vocês acham disso? Ou melhor, vocês acham alguma coisa sobre isso??
Acham que essa mudança melhoraria o blog, os textos? Ou preferem como está? Têm algum outro pedido de mudança? Já assistiram Mudança de Hábito? Ótimo filme, não acham?! Têm algum animal aquático preferido? Se sim, qual? E quem vocês acham que venceria numa partida de gamão, ele ou o Aquaman?
Tenho comida nos meus dentes? Acham que eu ficaria bonito num decotado vestido lilás?
Se um trem parte do ponto A a 90 Km/h e outro parte na direção contrária do ponto B a 130 Km/h no mesmo trilho, em quanto tempo eles irão se chocar? E quem entraria num trem sabendo que vem vindo outro na direção contrária? Não é óbvio que eles vão se chocar? Que vai dar MERDA? NÃO É?? PRA QUE CARALHO QUE VAI COLOCAR DOIS TRENS EM DIREÇÕES OPOSTAS NO MESMO TRILHO, MEU DEUS??? NÃO PODE DAR CERTO!!!

Comentem.
Nós queremos saber!

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segunda-feira, 28 de março de 2011

Casey


Ele ficou conhecido como “Gordinho Zangief”, por causa do personagem do jogo Street Fighter, mas seu nome verdadeiro é Casey Heynes.
Incomodado por um outro garoto, ele acaba perdendo o controle, vira o garoto de ponta cabeça e o joga no chão. Enquanto o garoto sai mancando, Casey se vira calmamente e vai embora.

O vídeo do episódio, colocado no YouTube logo depois, virou sensação da Internet.
Casey, de 15 anos, se tornou uma celebridade instantânea, do tipo que surge a cada semana na rede. Mas, ao invés de ser apenas motivo de piada e montagens mundo afora, Casey conheceu um outro tipo de fama..

A de um herói.

Vitima de gozações por toda sua vida, devido principalmente ao seu peso, ele finalmente revidou. Após engolir todos os tipos de provocações e agressões, ele não suportou mais e, no fim, acabou se tornando um exemplo a qualquer um em sua situação.
E, de um exemplo, tornou-se um herói.

É interessante ver a comoção causada pelo episódio.
O bulliyng, palavra que serve para denominar o tipo de agressão que Casey sofre diariamente, finalmente está se tornando foco de discussões. Livros, programas jornalísticos, séries de TV, filmes..
E tudo o que eu consigo pensar é:

Onde vocês estavam no MEU tempo?

Esse assunto se torna pessoal para mim porque eu sofri tudo isso nos meus tempos de colégio.
O garoto estranho e inseguro, que passava o intervalo lendo ou ouvindo música no fundo da sala, que não conseguia se relacionar direito com ninguém. Um alvo fácil pra qualquer um que quisesse se divertir com alguém mais fraco, qualquer um que quisesse se sentir melhor consigo mesmo às custas de outra pessoa.
Sim, eu era um alvo fácil.
Quem mandava eu ser como eu era, eu era o culpado por tudo aquilo que acontecia comigo.
Eu era o único culpado pelo que acontecia.

Confesso que isso era exatamente o que eu achava.

Entendam uma coisa, no bullyng o pior não é a humilhação, as surras, os insultos.
O que te mata por dentro é a sensação de se estar completamente indefeso, a vergonha, a submissão. Essa é a verdadeira humilhação. Ser agredido, física e psicologicamente, e não fazer nada, e se ODIAR por não fazer nada. É a sensação de que, por aceitar aquilo calado, você merece tudo aquilo. Afinal, você fez por merecer. Você é fraco, não é?! Você é estranho, não é?!
Então aceite.
Calado.

Vou contar uma coisa que eu não costumo contar.

Teve um dia, durante um intervalo entre as aulas, que eu estava sozinho na sala, sentado na minha mesa, lendo uma revista, como eu costumava fazer para me manter longe de problemas.
Eles então entram na sala, andam até a minha mesa e arrancam a revista das minhas mãos. Aí eles seguram meus braços, me arrastam pela sala, me levantam e, rindo, me colocam dentro da lixeira. Tudo isso numa fração de segundo. Enquanto tudo isso acontece, um grupo de garotas, reunidas no corredor, vê aquela cena e ri. Entre elas, uma garota que eu gostava, que eu considerava minha amiga. Quando eles vão embora, gargalhando e me xingando, eu faço exatamente o que eu podia fazer: levanto, limpo a sujeira e, silenciosamente, volto para a minha mesa. E a aula recomeça.
Só quem passa por isso entende a sensação que é ser tratado como lixo.
E só quem passa por isso pode entender o que isso faz com o espírito de uma pessoa.

Para a minha sorte, eu tinha a melhor família do mundo, e os melhores amigos do mundo.
Mesmo que eu não contasse isso pra ninguém, eles estavam la, me ajudando a me sentir melhor comigo mesmo, me ajudando a rir, de mim e do mundo.
E se eu passei por tudo isso com um pingo de sanidade, foi por ter aprendido a rir. Se eu sorrisse, mesmo no pior dos dias, então eu sabia que eu conseguiria passar por tudo aquilo. E, num passe de mágica, tudo ficava bem.
Então eu sorria.

E isso fez de mim a pessoa que eu sou hoje.

Acho que, no geral, tudo o que eu passei me tornou uma pessoa melhor.
Sei que muitos dos meus problemas têm origem naquela época, muita merda que eu faço é um reflexo da insegurança que o meu passado moldou em mim, mas ainda acho que eu sai no lucro.
Tem uma história que diz que dois prisioneiros estavam em um campo de concentração nazista. Fracos, magros, humilhados e indefesos. Então um deles começa a rezar. O outro pergunta “o que você está fazendo” e ele diz “eu estou agradecendo a Deus”. O outro então pergunta pelo que diabos ele pode estar agradecendo, e ele diz:
“Por eu não ser como eles”.

Independente do que eu passei, eu me sinto agradecido, por um simples motivo.

Por eu não ter sido como eles.

Foque nos dias bons, mantenha o queixo erguido e lembre-se que a escola não irá durar para sempre.
Segundo Casey, é isso que ele diria para os milhares de garotos que passam pelo mesmo que ele.
Eu acho que é exatamente o que eu diria.

Ah, e sorria.

Sempre.

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VIPs


O maior erro que alguém que assiste um filme baseado em fatos reais pode cometer é colocar a palavra "fatos" acima de "baseado".
A vida real necessita de uma certa "romantização" nessa passagem, diálogos mais marcantes, drama, conflitos. A vida real precisa de uma dose fictícia de glamour para tornar-se interessante o bastante pra tela grande.
A vida real, seca e crua, não da bilheteria.

É aí que mora o maior pecado do filme VIPs.
No ímpeto de tornar uma história real em algo mais.. digamos assim, comercial.. VIPs exagera e perde o tom.

A história real é a do golpista Marcelo Nascimento da Rocha que, após servir de piloto para traficantes paraguaios, em seu trambique mais famoso se faz passar pelo irmão do dono da empresa aérea Gol, aproveitando as devidas mordomias que seu papel lhe proporciona (leia mulheres, entrevistas e puxa-sacos).
Esse caso foi retratado no livro "VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso", de Mariana Caltabiano, que serve como base para o filme.

E é a isso que se limita a história real.
Uma base.

Apesar do próprio Marcelo ter assumido que fazia o que fazia apenas pela diversão, o filme tenta criar um motivo psicológico para isso, como que na tentativa de justificar os atos do personagem. Para isso ele faz uso da figura do pai e da presença sufocante da mãe. Não contente, ainda lança mão do motivo mais clichê do mundo, o "garoto inteligente e rejeitado que não encontra seu lugar no mundo", e faz disso tudo um pretexto para a suposta crise de identidade do protagonista.
De um malandro tentando se divertir, Marcelo passa a um rapaz psicologicamente perturbado que precisa adotar outras identidades para se sentir completo.
Afinal, isso seria muito mais interessante.

Mas seria mesmo?

A escolha do elenco, da forçada Gisele Fróes ao ótimo Norival Rizzo (mãe e pai do Marcelo, respectivamente, claro) é uma montanha-russa, exemplificada na atuação do protagonista Wagner Moura. Hora fantástica, hora constrangedora.
Mas se o filme vale por alguma coisa, é pelo seu ator principal. Indepedente de alguns exageros (que aparentemente estão la para contrastar com alguns momentos mais sutis), Wagner Moura mostra por que é um dos melhores atores de sua geração, e de muitas outras. Principalmente quando comparamos seus diversos papéis ao longo de sua carreira e percebemos que cada personagem é um personagem completamente único.
Sabendo ser carismático, engraçado, charmoso e mentalmente perturbado, ele é o principal motivo para assistir ao filme.

. . . mas vale dizer que sua interpretação de Renato Russo cover soa mais um Sidney Magal gripado.

Ao ver boa parte do cinema sair achando que os fatos mostrados na tela são de fato os fatos reais, percebe-se que um aviso seria bem-vindo ao começo do filme.
Algo do tipo "apesar de se basear em uma história real, VIPs é uma obra de ficção, mostrando eventos que na verdade nunca aconteceram e moldando seus personagens de acordo com seu próprio interesse".
Isso já seria bem esclarecedor.

VIPs não é um filme ruim, mas também não é um filme ótimo.
Ele respeitavelmente tenta mostrar toda a existência patética do personagem principal (que é realmente um coitado), e até consegue em alguns momentos.
Mas no momento em que tenta maquiar demais a verdade, a própria verdade se torna seu ponto fraco. Talvez a história real funcionasse melhor.
Inclusive por, ao se focar em um golpe, acabar ignorando todos os outros, talvez tão (ou até mais) interessantes quanto o que é mostrado no filme.
Do jeito que foi, serve apenas como um entretenimento esquecível e passageiro.

A prova de que algumas histórias reais já se sustentam apenas pelo que são.

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domingo, 20 de março de 2011

Angles


(Avisando que, como a Renatinha comeu poeira e não teve tempo de escrever o texto de hoje, a crítica do CD do Strokes fica por minha conta.. HÁ!)


Confesso, eu sinto saudade de quando o Arctic Monkeys era uma banda mais pop, menos sombria, cantando sobre garotas mimadas em pistas de danças e se divertindo com isso. Não que o Arctic Monkeys de hoje seja ruim.. ele é apenas um outro Arctic Monkeys.

Um amigo meu diz que ele gostava muito mais de Radiohead na época pré-Ok Computer. Ele entende que a banda evoluiu, procurou outros caminhos, atingiu uma certa maturidade criativa.. mas ele só prefere o Radiohead de antes.

Minha mãe gosta do Roberto Carlos. Mas principalmente da fase “Jovem Guarda”. A fase romântica é bacana, tem umas músicas lindas.. mas o que ela gosta mesmo é do Roberto roqueiro, dirigindo seu calhambeque, parando na contramão pra paquerar o broto displicente e levando tapas no cinema.


Esse é o espírito do novo álbum do Strokes.

Não é necessariamente ruim, tem umas músicas muitos boas..
Mas não é o Strokes que eu queria.


Há 5 anos atrás, depois de lançar seu 3º CD, o First Impressions of Earth, os integrantes da banda resolveram dar um tempo uns dos outros, por conta de um relacionamento já desgastado. Nas palavras do próprio Julian Casablancas, montar uma banda é a melhor maneira de acabar amizades. Assim, foi cada um pro seu lado.
O guitarrista Albert Hammond Jr. continuou seu elogiado projeto solo. O baterista Fabrizio Moretti juntou a namorada e o Rodrigo Amarante e formaram o Little Joy, banda que também teve participação do ex-companheiro de banda Nick Valensi, que por sua vez também gravou com Regina Spektor e Devendra Banhart. O baixista Nikolai Fraiture montou sua própria banda, o Nickel Eye, e o vocal Casablancas gravou seu ótimo álbum solo. E ficou claro que cada integrante quis manter uma certa distância musical do estilo Strokes em seus projetos.

O problema é que esse distanciamento não ficou apenas em seus projetos solos.

Neste novo álbum, Angles, a banda resolveu tirar das mãos de seu vocalista o monopólio criativo sobre as músicas e cada um contribuiu como bem queria. Daí o nome do álbum, mostrando que cada música mostraria um ângulo diferente dos Strokes.

E é aí que mora o maior problema do disco.

A visão do Julian criava uma certa unidade às músicas, unidade que simplesmente não existe mais. Não existe mais uma cara, uma identidade, o que existe são colagens, músicas que ficariam ótimas em um outro álbum que não um do Strokes.
"Machu Picchu" e "Two Kinds of Happiness" soam algo como um Phoenix (banda que sempre assumiu se inspirer no quinteto novaiorquino), enquanto que "Gratisfaction" bebe da fonte do Queen. "Call Me Back" tem um começo que mistura uma pegada Little Joy do Moretti com 11th Dimension, single solo do Casablancas. "You’re So Right" e "Metabolism" têm um peso incomum, enquanto que "Life is Simple in the Moonlight" é – pasme! - praticamente uma bossa-nova.
Ainda assim, Angles tem 3 legítimos momentos em que o Strokes não tenta ser nada além do Strokes. "Taken for a Fool" e "Games" poderiam se encaixar muito bem no 2º álbum do grupo, o Room on Fire. Isso sem falar na fantástica "Under Cover of Darkness", que reúne todos os elementos que fizeram do Strokes o que ele é, como se fosse uma colher de chá da banda aos fãs.

O único “retorno à fórmula” que Angles traz talvez seja o tempo de duração.
Diferente da pretensão dos 52 minutos do álbum anterior, o Strokes voltou aos 30 e poucos minutos dos dois primeiros álbuns, o que acaba sendo seu maior mérito. Desse jeito, o ouvinte sente vontade de repetir o álbum desde a primeira música e assim tem mais chances de se acostumar com essa nova cara da banda.

A gravação do álbum foi tensa, com várias mágoas ainda guardadas, cada um gravando sua parte no seu canto, uma experiência horrível segundo os próprios músicos, que eles não pretendem repetir no próximo álbum – que já está sendo devidamente planejado. Pelo menos, ao que parece, o prazer de tocar junto voltou à banda.
Em entrevista, o guitarrista Nick Valensi afirmou que ele sente que os Strokes ainda têm seu maior álbum guardado dentro deles, esperando para ser colocado para fora.
Eu, como fã, queria ver o Strokes do começo dos anos 2000 de volta. O Strokes despretensioso, com guitarras sujas, músicas simples e diretas e simplesmente divertidas.

Repito que Angles não é um álbum ruim.
Tem ótimas músicas, é corajoso no sentido de ir contra expectativas (para o bem ou para o mal) e sacia um pouco a sede por material inédito.
Mas a minha esperança é que o próximo álbum do Strokes seja, diferente de Angles, exatamente o que o nome diz:
Um álbum do Strokes.

É pedir demais?

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terça-feira, 15 de março de 2011

Three Hot Candles


Como o privilégio de falar primeiro sobre o novo álbum do Strokes é da Renatinha, vou guardar minha opinião pro meu próximo post..

Dito isso.. bom, acho que não tenho muito o que dizer agora.


. . .


Hmmm, na verdade eu tenho sim.
Algo que deveria ser dito apenas na semana que vem, mas vai agora mesmo.

Olha que bacana, gente.
Antes do recesso de carnaval, o Two Cold Fingers tava com uma média boa de acessos, la pelos 100 diários. Agora o número caiu pra uns 25! Huahahahahahaha
Mas o que a gente aprendeu nesses 3 anos (é isso mesmo?) de blog é que.. esses números significam para nós o mesmo que uma temporada na rehab significa pro Charlie Sheen: um grande NADA!

Quer dizer, no dia 18 de fevereiro, o blog atingiu a marca de 156 acessos.
O que isso significa? Bom, isso significa que 156 computadores diferentes ao redor do mundo visitaram o blog. Bacana, né?
Mas tudo o que esse número prova se limita a isso. Foram 156 visitas. Isso não significa que 156 pessoas leram minha crítica sobre o álbum do Marcelo Jeneci, escrito e postado no dia anterior. Ou qualquer outro post, novo ou antigo. Esse número apenas entrou no blog, mas quem pode provar que foi para LER alguma coisa?
A média de permanência de uma pessoa no Two Cold Fingers é de 1 minuto e 20 segundos, às vezes nem isso. Então aparentemente boa parte deste número de visitantes entra no blog direcionado por alguma palavra-chave, le o título de algum post, olha a imagem, e.. fecha a janela. Puf.
Então de que vale um número como esse?
O que significa um número que, no fundo, não significa nada?

Que fique bem claro, eu não falo isso com rancor.
É apenas uma constatação pessoal.

O Two Cold Fingers nasceu da simples vontade de escrever.
Mais que isso, da necessidade de ter um prazo a ser cumprido, um incentivo, uma obrigação.
No lucro disso tudo, conseguimos alguns leitores, conhecidos e desconhecidos, amigos ou não. Um número bem menor do que aquelas 100 visitas diárias, mas que nos orgulha como se fosse um milhão de acessos.

Continuamos escrevendo para nós mesmos, mas saber que uma única pessoa está lendo essas bobagens que colocamos aqui é mais do que nós realmente esperávamos.
Saber que você está do outro lado do monitor, interessado no que temos a dizer, é o que da a graça pra isso tudo.
Senão, bom, bastava ter um diário..

Então este post é um agradecimento a cada um que le o Two Cold Fingers, seja toda segunda e quinta, seja aleatoriamente. Seja eu mesmo ou seja a Renatinha. Sejam quantos forem. Gostem ou não.

Ah, sim.
Feliz aniversário, Two Cold Fingers.
E obrigado por dar mais sentido à minha vida nos últimos anos.

Três velas quentes pros dois dedos gelados, pessoal.

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quinta-feira, 3 de março de 2011

Três Dias Pra Sorrir

Post enche-linguiça de carnaval com música do Elton Medeiros.
Sim, porque a gente merece.


SEM ILUSÃO
Elton Medeiros

No carnaval
Não vou querer me fantasiar
Não vou querer me vestir de rei
Não quero mais colorir a dor
E se alguém quiser me aplaudir
Vai ter que ser assim como eu sou
Não quer dizer que não vou nem brincar
Só não quero é enganar o meu coração

No carnaval não vou mais sair fingindo
Que passo a minha vida inteira a cantar
Eu vou me divertir
Na certa eu vou sambar
Mas dessa vez a ilusão não vai me pegar

No carnaval eu sempre saí sorrindo
Me divertindo só pra desabafar
Três dias pra sorrir
Um ano pra chorar
Mas dessa vez a ilusão não vai me pegar


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Mas o espírito continua sendo o deste post aqui!

"Eu me sinto bem, é carnaval nessa cidade
Todo mundo transbordando de felicidade
Mesmo que digam que o mundo acaba amanhã..
"

Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar.

Ah, o carnaval.

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