
Finalmente tomei coragem de escrever sobre esse assunto.
Coragem sim, principalmente porque tenho uma pá de amigos que gostam de Teatro Mágico. E também porque, diferente de criticar o Chorão, falar mal do Teatro Mágico significa primeiramente “criar polêmica”.
Mas como aqui no Two Cold Fingers a gente perde o amigo mas não perde a crítica... isso ia acabar acontecendo hora ou outra... Minha história com o Teatro Mágico se divide em 3 atos.
Primeiro ato (romance)
Uma amiga me apresentou, lá nos idos de 2006, uma música chamada O Anjo Mais Velho. “É parecido com Los Hermanos!”, ela disse.
Minha primeira surpresa foi que... não tinha NADA a ver com Los Hermanos.
Mas minha segunda surpresa foi que, bem, aquilo era bom. Devido às minhas dificuldades com um computador e minha completa incompetência em baixar músicas (!!!), ela me gravou o primeiro (e, até aquele momento, único) CD do projeto Teatro Mágico. E não é que aquilo parecia bom mesmo, rapaz!? Tinha um clima meio intimista, melodias bacanas, letras interessantes. Músicas como A Pedra Mais Alta, Realejo e Camarada d’Água fizeram minha cabeça na hora.
Nesse momento, Teatro Mágico já estava começando a rascunhar o sucesso que ele ainda viria a fazer. Durante uma conversa qualquer sobre música, era normal a “banda” ser citada (entre aspas mesmo, já que o projeto solo do Fernando Anitelli tinha Teatro Mágico apenas como nome de CD, e acabou adotando o nome para a banda como um todo).
Assisti ao já tão aclamado show ainda naquele ano, e realmente era tudo aquilo que eu tinha ouvido falar... trapezistas, palhaços, músicos, atores, dançarinas... tudo isso junto no mesmo palco. Sem contar o público, que cantava cada palavra como se fossem as suas próprias palavras e aplaudia cada exaltação que o Anitelli fazia à música independente. Uma barraquinha simpática logo na entrada vendia CDs a preço de banana.
Tudo aquilo era muito, muito legal!!!
Segundo ato (comédia de erros)
O segundo show que eu vi do Teatro Mágico foi meio estranho.
Fiquei espremido entre milhares de pessoas que insistiam em pular e abrir os braços mesmo com o mínimo de espaço necessário para respirar. No palco, a banda parecia um pouco desanimada, um ar cansado. Tocaram O Anjo Mais Velho duas vezes, destruindo todo o impacto que uma música deveria ter no show. A barraca da entrada vendia CDs, DVDs e até camisetas (confesso que comprei uma). A interação que existia entre Fernando Anitelli e o público no show anterior, que contava até com o vocalista andando em meio ao público, pegando palavras aleatórias e criando músicas e rimas, era praticamente nula - a não ser pelo já cansativo discurso "viva a música independente" do Anitelli, principalmente por acontecerem no intervalo entre cada música. Em certo momento ele chegou a dizer que todas as críticas feitas ao Teatro Mágico eram pura inveja... afinal, as pessoas não têm gostos diferentes, elas têm apenas “inveja”.
Depois disso, tentei escutar o CD de novo. E foi uma tarefa bem difícil... tanto as letras quanto as melodias pareciam muito pretensiosas. Algumas músicas que antes eu pensava “puxa, mas que tirada genial ele teve aqui” se transformaram em “puxa, ele realmente escreveu isso a sério?”. Algumas escolhas de palavras pareciam ridículas, forçadas.
Não foi aquele Teatro Mágico que tinha me conquistado...
Terceiro ato (tragédia)
Procurei algumas músicas B-Sides do Teatro. A maioria apresentava a mesma coisa... várias tentativas fracas de jogos de palavras, uma vontade gigantesca de ser chamado de “gênio”.
Numa tentativa desesperada de reencontrar o motivo pelo qual o Teatro Mágico tinha me conquistado no primeiro ato, acabei indo eu outro show deles. O lugar era gigantesco, e soubemos que um DVD iria ser gravado por lá. E foi aí que a pá de terra foi jogada sobre o túmulo...
A banda entrou no palco com um atraso de horas. Boa parte da banda não estava presente (descobri que, por brigas internas, a banda acabou “quebrando”), e músicas eram tocadas com uma certa má vontade. O clima intimista que a banda teimava em criar não combinava em nada com o público que enchia mesmo aquele lugar tão grande. Anitelli continuava cuspindo sua metralhadora de “viva a música livre” e “ninguém está fazendo isso por dinheiro”... ao mesmo tempo que a barraca comandada por seus pais vendia CDs, DVDs, camisetas, livros, bottons, adesivos, agendas personalizadas, bonequinhos articulados e tudo o mais que vc puder imaginar com a marca “O Teatro Mágico”. Ao fim de várias músicas, Fernando Anitelli ouvia por um fone algo do tipo “hmm, não ficou legal não.”, vindo de sua produção, e a música era repetida inúmeras vezes. O próprio grand finale precisou ser repetido umas 4 vezes, com o Anitelli pedindo para o público FINGIR que tudo era espontâneo.
Toda aquela magia que eu senti ao escutar pela primeira vez O Anjo Mais Velho tinha se tornado uma grande farsa.
Escutei o segundo CD da trupe, intitulado “Segundo Ato”.
É um amontoado de pretensões. Toda a sinceridade que existia em algumas canções acaba soterrada por uma vontade irracional de transformar tudo em algo “genial”, desde as letras aos arranjos. É impossível escutar coisas como Os Insetos Interiores e não imaginar o Anitelli dando um sorrisinho orgulhoso a cada linha que escrevia, com palavras que nem tem razão para estar lá... ele apenas achou que seu público diria “meu Deeeeeeus, que cara geniaaaaaaaaaal esse Fernando” e escreveu aquele amontoado de coisas sem sentido.
Outras músicas que tinham tudo para serem ótimas ficam apenas medianas no meio de tantas repetições desnecessárias.
E até mesmo uma das poucas músicas que se salva, a inteligente crítica Pena, tem em seus versos a frase “poesia metamorfoseada em cifrão”... que ficaria muito bem na voz de uma banda pequena, que ainda não se rendeu ao dinheiro e à fama. Na voz de Fernando Anitelli soa apenas como uma grande hipocrisia.
Como disse a Renatinha no post dela, longe de mim culpar uma banda por querer ganhar dinheiro em cima do seu trabalho... o grande problema é quando ela continua dizendo que não está lá pela grana, enquanto é óbvio que é exatamente por isso que ela está lá. O Teatro Mágico já se transformou em uma indústria de dinheiro, e os discursos feitos por Fernando Anitelli em seus shows já perderam o sentido faz tempo. Soam apenas como grandes mentiras.
Tudo o que o projeto Teatro Mágico poderia ter sido foi destruído pela vontade de fazer sucesso e ganhar dinheiro.
Músicas forçadas e uma postura falsa.
Ou será que é tudo inveja minha?